Em meio à superficialidade da vida em pleno século 21, em que o consumismo promete a tão desejada felicidade e praticamente tudo é transitório, ainda tem gente que ganha a vida transformando o descartável em permanente. Perdidos em meio à multidão que frequenta as feiras de Londrina, pai e filho chamam a atenção consertando panelas usadas.
Às terças-feiras, o carro lotado de ferramentas e matérias-primas é estacionado na Rua Bartolomeu Bueno, no Jardim Petrópolis, Zona Sul da cidade. Lá, Moacir Hipólito, 58 anos, e o filho Sérgio Fernandes Hipólito, 37, iniciam os trabalhos da semana, substituindo borrachas em panelas de pressão, desamassando panelas antigas de alumínio, colocando cabos em facas: ''Falou em vasilhame, arrumamos tudo'', garante Sérgio.
Moradores do Conjunto Cafezal (Zona Sul), eles juntam os materiais de trabalho e partem para as feiras livres que acontecem às quintas e domingos na Região Central de Londrina. O ponto escolhido desta vez é a esquina entre as ruas Goiás e São Paulo. E o serviço não pára, já que sábado é a vez de atender os clientes que frequentam a feira do Jardim Bandeirantes, na Zona Oeste.
''Trabalhamos nas feiras há 12 anos por isso não faço idéia de quantas pessoas já atendemos nesse tempo todo'', diz Sérgio, contando que o pai transformou o bico em profissão ''desde a época em que morava no sítio, quando arrumava uma coisa aqui, outra ali, dos vizinhos, e fazia canecas com latas de óleo''.
''Comecei a trabalhar há 22 anos, em Ivaiporã, e desde então nunca parei. Criei meus sete filhos consertando panelas e agora, a dois anos de entrar para a terceira idade, digo que tem que ter honestidade para se viver'', afirma Moacir, que garante ser ''bastante procurado'' pelos clientes.
Um dos itens mais antigos consertados pela dupla foi uma panela de pressão cujo modelo era usado há mais de 50 anos. ''Hoje em dia as panelas são mais baratas e acessíveis, mas também são descartáveis. As antigas eram muito melhores'', opina Sérgio, ressaltando que a maioria das ferramentas utilizadas no conserto também já tem anos de uso. ''Só o material como roscas, parafusos, borrachas, vem de São Paulo, porque aqui é muito caro'', completa Moacir.
Bem longe do Centro, na Zona Oeste, uma placa informando ''Recarrega-se isqueiros a R$ 1'' chama a atenção na Rua São Benedito, no Jardim Maracanã. É lá que o aposentado Osmar Bertineli do Prado faz do bico o ganha-pão da família.''Perdi as pernas num acidente em 8 de março de 1991. Era moleque e tinha mania de pegar carona na escadinha do trem. Naquele dia, escorreguei da escada e minhas pernas enroscaram na linha do trem'', recorda.
Além de recarregar isqueiros em casa, aos domingos Prado cuida dos carros estacionados na Praça 7 de Setembro, Região Central da cidade. ''Costumo levar o gás comigo caso apareça algum serviço, mas as pessoas normalmente juntam vários isqueiros para eu recarregá-los de uma só vez.''
Em casa, a recarga é mais barata, custa R$ 1, ''mas na cidade cobro um pouco mais caro, R$ 2'', declara o aposentado, que também conserta ferros e ventiladores ocasionalmente.
O gás ele compra no Camelódromo, assim como alguns modelos diferentes de isqueiros, que ele revende no bairro. ''Tem isqueiro de ferro que custa de R$ 10 a R$ 30 e o dono prefere recarregar ao invés de jogar fora. Já os modelos que eu vendo são baratinhos, custam em média R$ 2, mas também são recarregáveis'', informa Prado, mostrando um modelo com luzes brilhantes e lanterna.
Além de recarregar, Prado conserta isqueiros quebrados. ''Como não tenho capital de giro para montar uma oficina, trabalho conforme aparece serviço.''

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