Milton DóriaTensão máximaFamiliares se desesperam na frente do 3º DP: temor de que detentos poderiam ter morrido durante fugaFuga de três presos, outros três feridos e 80% da cadeia depredada. Este é o resultado de mais uma rebelião ocorrida ontem de madrugada, no 3º Distrito Policial de Londrina, no jardim Bandeirantes, zona oeste da Cidade. Devido à falta de estrutura para abrigar os detentos, a maioria teve de ser transferida para outros distritos e cadeias dos municípios da região. O 3º DP, maior de Londrina, tem capacidade para 32 detentos, mas estava com 86 no momento da rebelião.
Segundo informações da Polícia Civil, presos da cela 3 cavaram um túnel que dava acesso ao pátio interno do distrito. Utilizando uma teresa (corda feita de panos), três detentos - José Luciano Celso Dias, Valdemir Luis Pires (ambos acusados de assalto) e Reinoldson Gomes Ferreira, conhecido por ‘‘Rei’’ - conseguiram pular o muro e chegar à rua. Rei é acusado de participar do assalto, ocorrido em junho de 1997, que resultou na morte do russo Kusma Ovchinnikov, 36 anos, e do filho Sava, dois anos.
No início da manhã, havia a suspeita de que os detentos teriam morrido no túnel, que ficou cheio de água, mas a possilibidade foi descartada depois de uma vistoria no local.
Milton DóriaCorda de pano usada para a fuga: três fugiram
O perito Marco Antonio Otta, do Instituto de Criminalística, disse que o túnel, de cerca de quatro metros de comprimento, possuía diâmetro de 25 centímetros na cela e 60 centímetros no pátio. Ele explica que o túnel se encheu de água porque a torneira da cela ficou aberta constantemente. ‘‘Eles (detentos) deixaram a torneira aberta provavelmente para facilitar a escavação.’’
Tanto Marco Antonio Otta como o delegado do 3º DP, Jurandir Gonçalves André, acreditam que os detentos escavaram o túnel durante a noite. Jurandir André observa que anteontem, durante revista nas celas, não foi encontrado nada suspeito.
Outros três presos tentavam fugir quando foram flagrados pelo policial militar e o investigador da Polícia Civil que estavam de plantão. Segundo Jurandir André, a ação dos presos foi descoberta às 6 horas. Um dos que tentou mas não conseguiu fugir é Evaldo Melo dos Reis, assassino confesso do PM Marcos da Silva Freire, morto em maio do ano passado, durante assalto ao posto avançado do Banestado na Universidade Estadual de Londrina (UEL). O delegado informou que Evaldo dos Reis é apontado por outros detentos como líder da fuga.
Paralelamente à fuga, os detentos começaram uma rebelião e acabaram quebrando cadeados e portas das celas. Jurandir André calcula que 80% da cadeia ficou destruída. O delegado diz não saber o motivo da rebelião, que durou, segundo ele, cerca de meia hora. O Pelotão de Choque da PM foi acionado e usou inclusive bombas de gás lacrimogênio para controlar a situação.
Paulo WolfgangOs estragos da rebelião: cadeia toda depredada
Durante a rebelião, os presos tomaram dois companheiros de cela como reféns e os feriram com estoques. Isinaldo Eugênio e Luis Gustavo Reis de Oliveira foram socorridos pelo Siate e encaminhados ao ambulatório Alto da Colina (pertencente do Hospital Evangélico). Segundo informações da assessoria de imprensa do hospital, Luis Gustavo teve fratura de nariz e ferimentos perfurantes. Isinaldo também sofreu ferimentos perfurantes. Ambos foram medicados e levados de volta ao distrito ainda de manhã.
O terceiro detento que saiu ferido durante a rebelião é Jeferson de Souza Barbosa, 20 anos. Ele levou um tiro de raspão no queixo, desferido por um PM. O delegado do 3º DP explica que Jeferson Barbosa segurava um outro detento, ameaçando-o com um estoque. Segundo ele, o PM atirou para poder salvar o preso feito refém.
Jeferson Barbosa está internado no Hospital Evangélico, onde deve ficar por mais três dias. A assessoria de imprensa do HE explica que ele sofreu um ferimento de raspão no queixo e ficará internado até o ferimento cicatrizar, evitando, assim, uma possível infecção. O preso teve também um corte superficial na cabeça.
A transferência dos presos começou pouco depois das 8 horas. Pela manhã, foram removidos 13 detentos já condenados para a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), 10 para o 5º Distrito, 4 para o 2º DP, 10 para Ibiporã e outros 6 para Cambé, segundo informou o delegado-adjunto da 10ª Subdivisão Policial, Acácio de Azevedo. A transferência foi realizada durante o dia todo. Acácio de Azevedo informa que 30 detentos tiveram que ficar no 3º DP. ‘‘Estamos com dificuldades para encontrar locais e abrigar todos.’’
Acácio de Azevedo diz que é preciso conseguir recursos urgentes para a reforma dos dois distritos. ‘‘A situação nos DPs de Londrina está bastante complicada’’, observa. Ele informa que, segundo contagem feita anteontem (antes da fuga), os quatro distritos abrigavam 260 presos - a capacidade é para 92 vagas.
Com a remoção de 13 detentos do 3º DP, a Penitenciária de Londrina - que ontem abrigava 370 presos, no limite de sua capacidade - passa a abrigar 383. O diretor da PEL, Raimundo Kitanishi, comentou: ‘‘Isso não é nada bom para se manter o sistema de segurança de uma penitenciária’’.

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