Razões de um não-motorista - Paulo Briguet
Paulo Briguet
Não sei dirigir e nunca saberei. Eu e o amigo Caetano, dono da mesma convicção, há anos fizemos aposta sobre o assunto. Quem tirar carteira de habilitação antes pagará uma caixa de cerveja ao outro. Eu sei, é uma aposta estranha. Mas vale a pena, porque inventamos a mais improvável caixa de cerveja de toda a história da humanidade.
Como nossa cidade prova
a cada esquina, o trânsito
e a insanidade comandam e subjugam o homem
Um piloto de aviões se espantou com a minha admitida incompetência. A ele, um sujeito que enfrenta todo dia os desafios de conduzir um veículo mais pesado que o ar, é particularmente incompreensível a recusa em fazer algo tão simples quanto engatar marchas e manobrar um veículo ao rés-do-chão, nem sequer levantando vôo. Surgiu, então, a pergunta habitual:
E no caso de emergência?
Ora, no caso de emergência, chamo um amigo (exceto Caetano), a ambulância ou o táxi da esquina. O duro é que ninguém aceita essa resposta, que para mim é simples e diáfana. Inventam hipóteses absurdas:
E se você estiver numa chácara afastada da civilização e acontecer alguma coisa?
A misteriosa expressão alguma coisa é típica de quem anda assistindo a muitos filmes americanos de serial killer, mas deixa pra lá. Primeiro, não aprecio mato. Meu negócio é cidade. Segundo, mesmo na zona rural, sempre haverá por perto alguém que dirige. Na remotíssima possibilidade de que algum dia eu esteja numa chácara e um dos presentes seja insuspeitado serial killer, aconselho a cobrar satisfações dele, e não de um pobre conviva que cujos únicos pecados são querer passar o final de semana tranquilo e não saber guiar.
Muita gente gosta de dirigir pelo prazer de estar no comando da situação. Para ser honesto, considero rematada bobagem. Como nossa cidade prova a cada esquina, o trânsito e a insanidade comandam e subjugam o homem, e não o oposto. Vivemos numa civilização tremendamente marcada pela dependência. Não quero somar mais um item à nossa interminável lista de pequenas escravidões diárias.
Os psicanalistas diriam que é fobia. Pode até ser. Mas eu questiono o caráter supostamente patológico de alguns medos humanos. Há quem tenha medo de cachorro, barata, ladrão, gás. Faz sentido: cachorro morde, barata transmite doença, ladrão rouba e gás explode. Carro é a mesma coisa. Além de levar a gente de um lado pro outro, ele às vezes bate, fica sem gasolina, capota, derrapa, fura pneu, isso quando o som não pifa bem no meio de uma sonata do Bach ou de um refrão da banda Madera. Se o autor desta crônica estivesse ao volante, cresceria a probabilidade de acontecer uma das citadas encrencas. É melhor andar no carro dos outros, muito mais capazes da complexa arte de conduzir veículos.
Prefiro nem falar das mortes no trânsito. Já trabalhei como repórter aqui no caderno Folha Londrina e conheço de perto a tristeza refletida nos índices da polícia. A recusa em dirigir também possui raízes nas tragédias humanas.
Contudo, não se pode dizer que não tentei. Para ser mais preciso, foram quatro temporadas de auto-escola, antes da aposta com o Caetano. Certa ocasião, nas proximidades do Lago Igapó 1, estava lá o instrutor de 18 anos de idade tentando fazer com que carro soluçasse um pouco menos sob a minha precária condução. De repente, ele ordenou:
á Pare o carro aí.
Eu obedeci como pude, estacionando o carro a uns três metros da calçada. Ele abriu a porta, saltou e dirigiu-se a uma jovem senhora que passava por perto, em outro automóvel. A motorista estacionou corretamente o seu carro. Abriu a porta. Saiu. Era uma bela balzaquiana. O professor de volante informou:
É minha mãe.
Aquela cena me arrasou. Não me perguntem por quê.
Manhãs depois, quando me flagrei, tal como uma criança gazeteira, arranjando motivos para matar a aula de baliza, prometi a mim mesmo:
Chega. Dirigir, nunca mais.
Hoje, posso garantir que foi uma sábia decisão, talvez uma das únicas que já tomei. Pensem nas vantagens:
1) Ignorar o sobe-e-desce da gasolina. Inclusive a gasolina batizada.
2) Desconsiderar a troca de óleo e a calibragem do pneu.
3) Aproveitar a manhã de sábado para atividades mais interessantes do que lavar o carango.
4) Não pagar IPVA, estacionamento, zona azul e flanelinha.
5) Não ter que adivinhar onde o Ippul resolveu hoje colocar o semáforo e mudar a mão da rua.
6) Não pagar seguro contra roubo e acidentes.
7) Não ter o carro roubado nem batê-lo.
8) Não negociar com a seguradora.
9) Não sonhar com carro novo.
10) Não suar o sol das duas da tarde para manobrar o carro e inseri-lo numa vaga minúscula na Rua Piauí.
11) Papear com os motoristas de táxi. Perguntar sobre o tempo e o resultado do futebol. Com o tempo, ouvir suas curiosas histórias e perguntar da família.
12) Ficar imaginando quem são e o que pensam essas pessoas que andam de ônibus junto com a gente, especialmente aquela senhora que fala sozinha.
13) Quando o carro de algum amigo quebra, e todos estão debruçados sobre o motor dando palpites, dizer com ar de falsa cultura: Acho que o problema é no eixo da grampola!
14) Debater apenas amenidades com o guarda de trânsito.
15) Pegar carona com a namorada e com a irmã.
16) Depois do trabalho, descer a Higienópolis a pé, ficar olhando as vitrines, os prédios e as casas, e pensar em quantos barracos existiram sob arranha-céus da burguesia, e imaginar como vivem e sobrevivem milhares de desconhecidos ricos, pobres e miseráveis na cidade.
Por razões de espaço, encerro aqui a lista, que poderia ser indefinidamente maior. Só darei mais um motivo, e fundamental: para mim, a vida é melhor sem dirigir.
As ruas de Londrina agradecem. E o Caetano também.
- PAULO BRIGUET é redator da Folha.





