Rasgadinho, a terra disputada a bala
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de novembro de 1998
Dimitri do Valle, James Alberti e Albari Rosa (fotos) 
É final de tarde em Rasgadinho, uma vila agrícola de Guaratuba, litoral do Paraná. A noite se aproxima aos poucos e, com ela, na mesma proporção, o medo: nenhum dos integrantes das 19 famílias da localidade se arrisca a sair de noite sozinho. Uma disputa de terra entre eles e o fazendeiro Sérgio Cavalcanti impôs o terror e o isolamenta à vila. Tímido e desconfiado, um casal de agricultores se aproxima dos repórteres. Devem pensar o que estranhos procuram naquela região remota, de casas de madeira e cobertura de palha, cercada de verde e montanhas.
Rasgadinho lembra as vilas dos primeiros colonizadores e seus ranchos rústicos de madeira, cheios de frestas que deixam passar a luz do sol. A atmosfera é pacata, mas basta o velho casal começar a falar que se desnudam os problemas e a desesperança de quem já não tem a quem recorrer. A cerca de 100 quilômetros de Curitiba, capital do Estado, um fazendeiro estaria usando métodos arcaicos, embora de prática recente, para expulsar posseiros de terras que ambos os lados afirmam ter direito. Búfalos circulam livremente pela vila e destroem plantações e ameaçam os agricultores. Capangas são acusados de agredir moradores, dar tiros em casas, na escola e roubar a merenda escolar.
Em apenas um ponto, as duas partes concordam: Rasgadinho é uma terra sem lei. E mais: sem cidadania, sem água encanada, sem luz, sem esgoto ou posto de saúde. A vila tem uma escola, fundada em 1953, mas os 14 alunos ficam meses sem estudar porque têm medo de caminhar pelas estradas precárias e dar de encontro com manadas de búfalos. O que existe ali é a força dos vigilantes de Cavancanti - segundo ele, a única lei que os posseiros entendem.
Os moradores acreditam na religião e, por isso, não andam armados, a não ser com os facões e foices que servem para o trabalho. Confiam nos advogados da Comissão Pastoral da Terra. As benfeitorias e os santinhos só chegam à vila em épocas de campanhas políticas. A não ser nessas épocas, o aparelho estatal pouco tem a oferecer às famílias da vila.
Pela própria experiência, os posseiros afirmam que não podem esperar nada da polícia. Ela nunca esteve na vila, exceto uma vez, quando foi para demarcar as terras das partes envolvidas num acordo judicial que não foi cumprido. A polícia, por sua vez, diz que não pôde atender as ocorrências porque o acesso é difícil e não existem agentes suficientes. A promotoria deu um alento aos agricultores ao pedir, em março, a prisão preventiva do fazendeiro e dos capangas, mas a Justiça até hoje não se pronunciou.
As 14 crianças que estudavam na escola municipal de Rasgadinho, fundada em 1953, tiveram férias prolongadas este ano. A professora teve que dar frequentes folgas forçadas. O motivo: os búfalos soltos na região. O medo dos animais e de pistoleiros impediu o uso dos lápis, cadernos e livros durante três meses este ano. O aprendizado deu lugar à violência. A janela da frente da escola exibe a marca de um tiro de revólver disparado de dentro para fora durante um arrombamento seguido do saque da merenda. Quem atirou?
Irônico, o engenheiro mecânico Sérgio Cavalcanti, um fazendeiro de final de semana, segundo seu próprio conceito, nega as acusações e diz ser vítima de uma trama dos posseiros. Ele diz jamais ter orientado seus funcionários a usar da força para expulsar os moradores. Cavalcanti prefere culpar a polícia, o Insituto Ambiental do Paraná (IAP) e os agricultores, que, segunda ele, são gente de má índole e mentirosa.
O fazendeiro não sabe, mas em relatório de março de 97, o sub-delegado da Regional de Guaratuba, Osmiro Nunes, afirma que os búfalos foram responsáveis por prejuízos nas plantações e pela ausência de alunos na escola da comunidade.


