Rapaz que recebeu coração não resiste
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segunda-feira, 02 de março de 1998
Célia Baroni 
Milton DóriaQuadro graveGregori; Lauro Vargas, diretor clínico; e Ribeiro, diretor geral do HE: as chances eram poucasJúlio César Aguiar de Andrade, 15 anos, não resistiu ao pós-operatório e morreu ontem, às 12h30, no Hospital Evangélico (HE) de Londrina, depois de ter sido submetido a transplante de coração. O motivo do óbito foi insuficiência hepática (falência do fígado). Originário de Maracaí (SP), Júlio Andrade foi o primeiro caso de transplante de coração realizado na cidade após a nova lei de doação de órgãos. Ele apresentava um quadro clínico tão grave que a Central de Transplantes autorizou que furasse a fila dos que esperam por um transplante de coração.
Desde o início sabíamos que as possibilidades do rapaz eram pequenas, mas não podíamos negar a única chance que ele tinha de sobreviver, resumiu o médico responsável pelo transplante, Francisco Gregori Júnior. As informações foram dadas em entrevista coletiva ontem pela manhã, com a participação de Lauro Vargas Filho, diretor clínico e Antonio Carlos Ribeiro, diretor geral do HE. Nos últimos meses, Júlio Andrade alternava sua vida entre os Centros Intensivos de Tratamento (CTI) dos hospitais e sua casa, onde conseguia permanecer apenas dois a três dias.
Sem o transplante, Júlio Andrade poderia sobreviver no máximo 15 dias. No seu caso, o transplante tinha 40% de chances de ser bem sucedido. Em um paciente com um quadro clínico menos agudo as chances de sucesso chegam a 90%.
A cirurgia foi realizada no sábado e a complicação no fígado e nos rins foi uma triste surpresa para a equipe médica. Francisco Gregori explicou que o rapaz reagiu bem à cirurgia, o coração apresentou uma ótima resposta e o bom funcionamento do novo órgão chegou a afastar a possibilidade de complicações respiratórias - principal preocupação da equipe.
Às três horas de domingo, Júlio Andrade não precisava mais do apoio de máquinas para respirar. Ele chegou a se sentar na cama, pedir água e conversar com familiares e membros da equipe médica. Por volta das 10h30 ele sofreu convulsões, voltou a precisar de auxílio para respirar mas o quadro permaneceu estável. Às 18h30, no entanto, ele sofreu novas convulsões e entrou em coma hepático. Não é possível contornar a falência do fígado. Sem o órgão há um acúmulo de amônia no organismo e isto é fatal, esclareceu o médico.
A equipe médica do HE já realizou sete transplantes de coração - incluindo o de Andrade. Cinco pacientes sobreviveram e hoje têm uma vida normal, representando 72% de sucesso neste tipo de cirurgia. O índice está acima da média mundial das instituições que realizam transplantes, segundo Francisco Gregori.
Júlio Andrade recebeu o coração de Maria Joselina do Nascimento, de Barbosa Ferraz (74 quilômetros a leste de Campo Mourão). A doadora tinha um tumor no cérebro e sua morte cerebral foi confirmada da sexta-feira. A família de Maria do Nascimento autorizou também a retirada dos rins, córneas e fígado. Caren José Pinto, 37 anos, de Londrina, e Anderson Gonçalves Assunpção, 21 anos, de Ivaiporã (110 quilômetros ao sul de Apucarana), receberam as córneas. Os dois tiveram alta no domingo.
O jornalista Francelino França, de Londrina, recebeu um dos rins, continua internado na CTI do Evangélico e ontem apresentava um quadro clínico bom e estável. O outro rim foi para Vivaldino Gonçalves dos Santos, 36 anos, de Maringá, onde foi realizado o transplante.


