São Paulo- O calouro João Vitor Mancini Silvério, 19 anos, comemora a aprovação no vestibular de Educação Física, na Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba. No caso dele, a comemoração tem um sabor diferente: João Vitor tem síndrome de Down.
''Foi uma prova complexa mas sempre tive certeza absoluta de que iria passar'', diz ele. Para isso, porém, os pais tiveram de se empenhar desde cedo. Assim que saíram da maternidade, procuraram especialistas e foram orientados a estimular o bebê.
O menino estudou apenas dois anos em uma escola para excepcionais. Depois, só colégios regulares. Os pais ouviram vários 'nãos' até finalmente encontrar uma escola disposta a receber um estudante com Down.
''João Vitor sempre nos deu alegrias'', diz a mãe, Roseli Mancini, de 48 anos, secretária em uma igreja católica. ''Cada etapa que ele vencia era uma vitória e uma surpresa. Não achávamos que passaria para a 5 série. Depois não pensávamos que chegaria ao 2º grau. Mas ele sempre insistiu que iria até o final''.
A síndrome não conseguiu impor limites para João Vitor. Ele fala claramente e é articulado. Gosta de ler. Nunca foi reprovado na escola. Aprecia música, principalmente o rock da banda CPM22. É fã de novelas, pratica esportes. Pinta quadros. Está sempre ligado na internet. Namora, tem conta em banco. Quer aprender inglês para conhecer o mundo. Viaja sozinho. E tem a chave de casa.
A escolha por Educação Física quem explica é o próprio calouro. ''Em gosto de esportes. Jogo futebol, basquete e tênis e pratico natação e hipismo desde criança. E quero dar aula para pessoas com deficiência mental. Nem todos os professores gostam de dar aula para pessoas especiais. Ou porque não entendem como elas são ou porque têm medo de machucá-las. Como eu também sou especial, acho que sou esse alguém que pode ajudá-las a ser alguém na vida''.
Foi com essa mesma generosidade que João Vitor enfrentou o preconceito. ''Às vezes me batiam, às vezes me xingavam. Eu ficava um pouco chateado, mas a gente tem de levar a vida à frente e deixar essas pessoas de lado. As pessoas vêem a aparência, a roupa que você usa, o que tem por fora. Ninguém vê por dentro, se tem sentimento, se é uma pessoa boa. É por isso que poucas crianças especiais vão para a escola''.
A expectativa do rapaz, agora, é mais uma vitória. ''Sei que vai ser difícil, mas não perco as esperanças. Digo a mim mesmo: Vou conseguir. Vou pegar o diploma e vibrar. Quase ninguém tem esse privilégio. Eu vou ter''. E alguém duvida dele?

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