Marcos BorgesRandas: técnica reconhecidaMais de 600 pacientes do Paraná condenados à morte por crescimento do coração tiveram uma nova chance de vida com a técnica de cirurgia ventriculectomia parcial. Mais conhecida por cirurgia do ‘nhaco’ (expressão popular usada pelos mineiros como significado de ‘pedaço’), a técnica consiste em diminuir o tamanho do coração até o mais próximo do normal. Diante da pequena oferta de órgãos, a cirurgia do nhaco se apresenta como alternativa ao transplante, que seria a única saída para esses casos.
Reconhecida há cerca de dois anos pela classe médica brasileira e mundial, a técnica foi desenvolvida - e vem sendo aplicada - há 14 anos pelo cardiologista Randas Vilela Batista, no Paraná. O assunto foi o tema da abertura do 25º Congresso Paranaense de Cardiologia, ontem à noite, em Londrina.
Paranaense criado em Minas, Randas afirma que os estudos durante esses anos de aplicação da técnica mostram que a sobrevida até dois anos após a cirurgia alcança 60% dos casos. As estatísticas do cardiologista revelam ainda que 80% conseguem sair do hospital com vida e 95% dos pacientes sobrevivem à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). ‘‘Se os doentes não forem operados em no máximo seis meses, o aumento do coração leva à morte em 100% dos casos.’’
Os números refletem a média. Randas afirma ter paciente com 14 anos de evolução após a cirurgia e outro com cinco anos. O paciente mais velho de Randas é um homem de 95 anos que, de acordo com o cardiologista, está ‘‘muito bem’’, dois anos depois da cirurgia. O paciente mais jovem foi um bebê de seis meses, operado há cerca de um ano - e que também passa bem, segundo o médico.
Randas explica que a sobrevida, entre outros fatores, está relacionada com a causa que levou ao crescimento anormal do coração. Os pacientes vítimas de valvulopatias, por exemplo, apresentam melhor recuperação, ao contrário dos portadores da doença de Chagas, que têm a pior evolução. ‘‘No caso da Chagas, o músculo está muito danificado, o que compromete o sucesso da cirurgia.’’
As vantagens da técnica em comparação ao transplante são muitas. Entre elas, o cardiologista cita a pequena oferta de órgãos diante da demanda de transplantes. Ele afirma que no Brasil, de 100 pacientes, um vai conseguir o transplante. Randas detalha: 40% dos pacientes são excluídos de um possível transplante de coração pela idade avançada; 20% por terem problemas psicossociais e 20% por doença sistêmica (diabetes e insuficiência renal, entre outras). ‘‘Dos 10% que sobram, muitos acabam perdendo o órgão transplantado por incompatibilidade genética.’’
O preço da cirurgia é bem menor que o de um transplante de coração. Segundo Randas, um transplante custa entre R$ 50 mil e R$ 100 mil enquanto ele faz a cirurgia do nhaco por R$ 2 mil, pagos pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Apesar do acompanhamento posterior ser tão necessário quanto no caso de um transplantado, o paciente submetido à cirurgia do nhaco, segundo Randas, não precisa gastar muito com medicamentos. O contrário ocorre com os transplantados.
Depois do reconhecimento da técnica, o Brasil, diz Randas, continua sendo o País que mais a utiliza. Sem números precisos, ele estima que cerca de 900 cirurgias de nhaco tenham sido realizadas no Brasil. No exterior, os Estados Unidos são o país que mais utiliza a técnica do nhaco.
Até conseguir a atenção do mundo científico, o cardiologista passou por maus momentos. Ele conta que, taxado de louco, foi expulso de um hospital por realizar a cirurgia. Começou a atuar em hospital menor e aí veio o Conselho Regional de Medicina (CRM) querendo cassar seu diploma. ‘‘Eles me acusavam de estar fazendo experiência com humanos. Eu respondia que estava experimentando em pacientes que não tinham a mínima chance e eles desistiram de tirar meu diploma.’’
O reconhecimento viria mais tarde, quando Randas resolveu falar sobre a técnica num congresso norte-americano que discutia a diminuição do pulmão. ‘‘Falei da semelhança entre as duas técnicas. Se podia diminuir pulmão, por que não fazer o mesmo com o coração?’’ Atualmente, ele trabalha em Campina Grande do Sul, cidade próxima de Curitiba, e alerta: ‘‘A técnica só é usada em doentes em último estágio como mais uma chance que lhe é oferecida. Não é a solução para todos os casos’’.

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