O secretário de Estado da Saúde, Armando Raggio, culpou ontem o Ministério da Saúde pelo desperdício de toneladas de medicamentos no País. Somente no Paraná, três toneladas serão destruídas, conforme mostrou reportagem da Folha ontem. Durante coletiva no Palácio Iguaçu, Raggio disse que o Ministério repassou medicamentos em excesso, que levariam décadas para ser consumidos. O assessor da diretoria executiva do Ministério da Saúde, Platão Fischer Puhler, admitiu a culpa do órgão. A compra excessiva teria sido feita pela direção da Central de Medicamentos (Ceme), antes de 24 de julho de 1997. O desperdício seria, segundo Puhler, um dos motivos da extinção da Ceme. O assessor disse que um inquérito tramita na Justiça para identificar os responsáveis pela compra, mas que ele não sabia em que fase está o processo.
O desperdício de dinheiro público chega a milhões de reais. Segundo Puhler, somente com o Nonoxinol, uma geléia espermicida contraceptiva, o País gastou R$ 28,9 milhões. A compra, conforme o assessor, era ainda maior - R$ 40,6 milhões -, mas o Ministério conseguiu bloquear R$ 11,6 milhões. O Paraná, que teria pedido 2.900 unidades, segundo Raggio, recebeu 240 mil. A maioria das unidades compradas pelo Ministério da Saúde deve ser incinerada. O Nonoxinol é, porém, apenas um dos itens que serão destruídos. Ao todo, são cerca de 30 medicamentos, usados para hanseníase, tuberculose, anticonceptivos e até mesmo soro fisiológico.
Na coletiva, com uma bisnaga de Nonoxinol nas mãos, Raggio considerou a compra um absurdo. ‘‘Isso é uma coisa jamais vista. Num País em que falta remédio ocorrer uma compra nessas proporções. O povo brasileiro pagou por isso que está aqui’’, disse ele, levantando a caixa do medicamento. Puhler se disse surpreso pela posição de Raggio. ‘‘O secretário sabe do problema e, hoje, está apenas incinerando os medicamentos’’, disse.
O secretário afirmou ter tentado reencaminhar os medicamentos para outros Estado, mas não teria conseguido porque todos estariam com o mesmo problema. ‘‘Todos os Estados foram inundados por esse absurdo’’, disse. Alguns Estados, porém, não tem excesso de Nonoxinol (veja texto abaixo).
Apesar da destruição das três toneladas, Raggio considerou o volume abaixo do índice de desperdício aceitável. Segundo ele, a secretaria teria distribuído cinco mil toneladas para 339 municípios do Estado. As três toneladas seriam equivalentes, portanto, apenas 0,07%. A taxa aceitável de perdas, conforme ele, seria de 1% do total distribuído.
Raggio também argumenta que nem todos os medicamentos que serão incinerados estão vencidos. Parte deles, segundo o secretário, teria sido apreendida pela Vigilância Sanitária e outra teria sido deixada de usar por ter sido substituída pelo Ministério da Saúde.

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