Rádio quer voltar aos anos dourados
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 1998
Guilherme Vieira 
Em tempos de internet e informações em tempo real via satélite, o rádio - o mais dinâmico dos meios de comunicação - não está conseguindo ganhar espaço na batalha por verbas publicitárias contra a TV, jornais e out-doors. Essa pouca agilidade vem refletindo diretamente no material apresentado na programação das emissoras que nem de longe lembra a época de ouro do rádio, vivida nos anos 40 e 50 no Brasil.
Segundo o vice-coordenador do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná, Carlos Alberto Martins da Rocha, as emissoras de radiofusão estão sendo mal utilizadas. Para Rocha, o rádio tem servido como complemento do que foi anunciado na TV e lido nos jornais reforçando as campanhas realizadas nestas mídias. Rocha acredita que uma das causas que está levando isto a acontecer é o forte poder de sedução da imagem, principalmente depois do surgimento da computação gráfica, que tornou possível a realização de qualquer idéia na TV. Como fazer um bebê urso polar beber um refrigerante, nadar e dar um abraço na mamãe urso sem a informática?
Rocha analisa que com a computação gráfica a TV acabou entrando ainda mais no terreno do rádio que era a única mídia sem limitações. O rádio entretanto continua sendo o principal veículo das classes mais baixas e, segundo o professor Rocha, é o único veículo de comunicação que está em todas as residências do país. Para Rocha, a reação do rádio ainda que tardia começou depois que surgiram as emissoras interligadas em rede nacional. Segundo o diretor de jornalismo da Rádio CBN, José Wille, esse sistema vem garantindo que a Central Brasileira de Notícias mantenha qualidade na programação e opere com custos reduzidos. Wille, que já cansou de escutar a pergunta - por que não toca pelo menos uma musiquinha? á- explica que a emissora apostou na segmentação para conseguir garantir uma fatia do mercado. Quem quer ouvir notícia se liga na CBN. Existe um excesso de emissoras trabalhando em Curitiba, uma comprometendo o faturamento da outra. De todo o bolo da mídia apenas 4 a 5% vai para o rádio, diz.
A proposta da CBN já é considerada pela rádio como um sucesso, tanto que já existe uma afiliada em Londrina e outra que começa a funcionar em Maringá em outubro. A CBN ganhou o top de Marketing em 1997 com essa idéia, comemora.
O redator publicitário Nei Alves acredita que o rádio vem passando por um momento de total desvalorização, sempre recebendo apenas os recursos de sobra de verba do mercado publicitário. A especificidade do veículo não vem sendo aproveitada pelo mercado. Como a verba para rádio é pequena, as agências acabam se dedicando mais à TV e ao jornal, porque faturam um percentual em cima do valor da campanha, conta.
Outro que critica a forma como as agências de propaganda estão utilizando as rádios é o publicitário João José Werzbitzky. Para João José é necessária mais sensibilidade dos anunciantes em relação a importância do rádio, que na realidade brasileira é pouco utilizado. Mara Fontoura, proprietária da empresa Gramophone, especializada na produção de jingles (mensagem publicitária musicada para rádio) diz que a publicidade que é realizada no rádio muitas vezes apenas adapta o material criado para televisão, deixando de utilizar todo o potencial do veículo. As pessoas querem economizar a desconhecem que a linguagem do rádio é diferente. A falha já vem dos novos publicitários, que entram no mercado despreparados e não conhecem o rádio.
Entretanto, na visão de Mara Fontoura a propaganda em rádio vem crescendo nos últimos anos em função do alto preço das outras mídias, ao mesmo tempo em que a qualidade dos trabalhos está caindo. Produzem com qualidade ruim sem conhecimento da linguagem de mercado, fazendo trabalhos medíocres, desabafa.


