Ela não compõe o cardápio de estações radiofônicas de nenhum lugar do planeta e mesmo assim nunca sai do ar em qualquer ambiente compartilhado por mais de dois seres humanos. De dia ou de noite, lá esta a rádio-peão pronta para lançar aos quatro ventos informes extraoficiais sobre tudo e todos. No caso de empresas, a audiência é garantida e este tipo de comunicação encabeça as paradas em espaços como os do ''cafezinho'', intervalos, ''happy hour'', canteiros de obras, e por aí afora.
Até bem pouco tempo atrás, a rádio-peão era considerada o lado negro da comunicação das empresas. Percebida como um ruído negativo gerador de fofocas e mal dizeres, era encarada como praga capaz de azedar o relacionamento entre funcionários e superiores e de afetar o bom desempenho das equipes e da própria corporação. Na medida em que a comunicação interna ganha em importância, os informes extraoficiais, vagarosamente, estão deixando de ser repelidos e se transformando em importante ferramenta para medir a eficiência da comunicação oficial.
Tanto é assim que as ondas da rádio-peão ultrapassaram o Atlântico e reverberaram nos salões seculares da Sorbonne, uma das mais tradicionais instituições de ensino e pesquisa do mundo localizada na França, com o trabalho defendido pelo consultor em comunicação, o brasileiro Artur Roman.
Em sua tese de pós-doutorado em Sociologia, ele se debruçou sobre a comunicação clandestina nas organizações e desenvolveu os conceitos de ''bem-dito'' (toda comunicação institucional oficial) e ''mal-dito'' (comunicação clandestina, não institucional e não oficial).
''O discurso 'mal-dito' tem certas características: não é confiável porque não tem compromisso com a verdade, pode ser sacana e bem humorado e dele fazem parte a fofoca e os boatos. No meu ponto de vista, esse discurso não é negativo porque faz parte das interações humanas e defendo sua existência, pois é fundamental para equilibrar as relações no trabalho'', esclarece o estudioso.
Roman aponta que os chefes mais atentos buscam entrar na sintonia da rádio-peão não para minar sua existência, mas para usá-la em benefício da organização. ''Quando o 'bem-dito' é mal conduzido, acaba transferindo para o 'mal-dito' uma responsabilidade que a rádio-corredor, rádio-peão, rádio-secretária ou qualquer outra denominação similar não tem, que é passar informação aos funcionários'', explica. ''Por outro lado, o 'mal-dito' pode dar um 'feedback' importante, porque responde se o 'bem-dito' foi bem feito ou não e se precisa de complementação'', completa o especialista.
Trabalhando em seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP), a professora do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marta Martins, complementa que a rádio-peão não representa necessariamente pontos de conflito.
''A pessoa pode se envolver na rede de boatos na perspectiva de conter uma ansiedade, uma insegurança sobre sua estabilidade na empresa. Então, os líderes podem se inserir nesse ambiente, tanto alimentando a rede com informações verídicas como utilizando-a para obter dados sobre expectativas dos funcionários.''
A professora alerta que só o jornal mural e a caixinha de sugestões já não dão mais conta de irrigar as organizações com informações. ''A gente teve por muito tempo a ideia de que informação e poder tinham uma relação muito próxima e quem retivesse informação preservava seu poder. Essa dinâmica hoje é contrária. Quanto mais informação você mostrar e divulgar mais poder você é capaz de exercer no ambiente no qual atua, porque o conhecimento é o bem que as organizações mais precisam.''

mockup