A aplicação de atividades para os menores seria uma tarefa fácil, não fosse um 'racha' promovido pelos próprios adolescentes dentro do Ciaadi. Existem dois grupos rivais: Alas 2 e 3 abrigam os meninos da 'Bratac' (como é conhecido o conjunto Nossa Senhora da Paz, na Zona Oeste de Londrina), enquanto as alas 1 e 4 congregam os adolescentes das favelas Vila Rica e Pantanal, também na Zona Oeste.
A curiosidade sobre este racha é que, hoje, nenhum dos 38 menores do Ciaadi pertence a qualquer uma das vilas citadas. Ninguém no Centro sabe explicar por que isto ainda ocorre, mas a disputa persiste. ''Criou-se este estigma dentro do Ciaadi e quando um menor novo chega, ele é obrigado pelo pessoal da ala a tomar partido de algum dos lados'', supõe um dos educadores.
Em situações normais, a divisão dos menores nestes dois grupos gera somente um clima de provocação constante entre eles. Enquanto adolescentes da mesma ala tratam-se como ''trutas'' (parceiros), menores de grupos diferentes chamam-se somente de ''pilantras''. Até mesmo os educadores, eventualmente, são intimados a dizer com que grupo eles ''correm''.
Esta divisão força os funcionários do Ciaadi a elaborar, antes de todas as atividades, um pequeno plano de transporte dos menores das celas para o pátio e salas de vídeo e artesanato. Como os grupos rivais não podem se cruzar, todas as alas são trancadas com cadeado para que somente depois as celas com os menores que vão participar dos programas sejam liberadas. O problema, neste caso, reside na ala 3, que é, ao mesmo tempo, um corredor de acesso do pátio para a ala 4. Neste momento, os menores da Bratac fazem dos adolescentes da Vila Rica e Pantanal alvos de canecos de água, cuspe e xingamentos, sempre sobrando um troco para os educadores.
Foi este racha que gerou a última grande situação de tensão no Ciaadi. Em meados de dezembro do ano passado, menores das alas 2 e 3 conseguiram tomar a chaves de acesso às celas de um dos educadores e liberaram todos os companheiros. O objetivo deles era claro. ''Os pilantras da Pantanal estavam na atividade. A gente queria matar eles (sic)'', explicou um dos meninos.
A situação foi parcialmente controlada quando os funcionários conseguiram trancar os menores revoltos no refeitório. Porém, ao perceberem que estavam novamente presos, eles iniciaram um quebra-quebra. Janelas - de vidro - e a pia foram destruídos. Um a um, eles foram recolocados nas celas, de onde foram retirados vários estoques, as armas perfurantes confeccionadas com pedaços de metal e madeira.
Na semana em que a reportagem da Folha passou no Ciaadi, revistas simples nas celas localizaram pelo menos mais 15 estoques, num período considerado de ''tranquilidade'' pelos educadores. O destaque é a criatividade: tudo pode virar uma arma. Por isso, material como tampas de marmitex e rodinho nunca podem ser deixados nas celas. Escovas de dente e canetas são contadas diariamente.

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