‘Quiseram comprar
minha casa para eu
parar de reclamar. Mas
eles estão errados’’
O protético Rubens Souza Galian, 27 anos, reclama que o ruído marcante eternizado pela velha fábrica incomoda seu sono há pelo menos 12 anos. Sua mãe, a professora aposentada Suzana Souza Galian, 59 anos, queixa-se do mau cheiro na frente de sua casa, resultado do apodrecimento dos restos de ração que se acumulam na rua e na calçada. ‘‘Às vezes, no meio da madrugada, você olha pelo vitrô e está tudo escuro, parece que acabou a energia. Na verdade é uma fumaça escura que cobre toda a visão. Quem passa de bicicleta tem que parar, porque não enxerga nada’’, completa o protético.
A cabelereira Iraci Rosa Vicentini, 52 anos, acorda de madrugada com o barulho da bigorna contra os canos entupidos por onde passa a produção. Sua cliente, a dona de casa Trindade Gasparotto, 62 anos, lamenta a situação dos seus olhos e da sua garganta, grandes prejudicados pela constante presença de fuligem e da poeira levantadas pelos caminhões quando adentram o pátio da unidade industrial.
O aposentado Miguel Hirata, 62 anos, não se conforma com a sujeira espalhada pelo quintal e pelas grades e com a desvalorização do seu imovél, construído há 20 anos.
Os nomes acima integram um abaixo assinado contra o funcionamento da fábrica de rações da Big Frango, no centro de Arapongas, feito e refeito várias vezes por cerca de 300 moradores do Jardim Aratimbó.
Segundo o grupo, os problemas provocados pela fábrica, planta industrial que já serviu a diversos setores e que funciona imponente há décadas à margem da ferrovia que atravessa Arapongas, começaram a se tornar mais críticos nos últimos seis meses. Alguns deles afirmam que os danos ambientais são gerados por manutenção inadequada e descaso.
Um destes moradores disse que um dos piores procedimentos habituais era a queima do óleo que vazava das caldeiras e apontado como a causa da escuridão absoluta e malcheirosa das madrugadas.
De tanto reclamar, um desses moradores teria recebido uma oferta de compra de sua casa, onde também funciona seu salão, mas se recusou a fazer negócio. ‘‘Eles quiseram me comprar para parar de reclamar. Só que isto não é justo. Eles é que estão errados’’, disse à Folha um dos reclamantes, sem querer se identificar.
Outro morador pôs a casa à venda, por entender que a sa© úde de sua mulher, já doente, está sendo prejudicada pela fuligem da fábrica. O casal de sexagenários, ‘‘expulso’’ pela poluição, não quis dar entrevistas, mas sua história foi confirmada pelos vizinhos.
Com tantos desconfortos, não é difícil encontrar alguém no Aratimbó com problemas respiratórios crônicos. A maioria dos entrevistados relatou pelo menos uma história de alergia, ou efizema, ou outros problemas no pulmão ou nas vias respiratórias. ‘‘Minha filha tem rinite, já passou por duas cirurgias. Eu tenho problemas no olho, que ficam irritados’’, conta Trindade Gasparotto.
‘‘Além dos problemas de sa© úde, a gente tem muito prejuízo financeiro. A fuligem corrói as grades, estraga a pintura. A cada ano temos que pintar tudo. Sem contar que a região está desvalorizada. Todo mundo que investiu perdeu dinheiro’’, relata Suzana Galian.
Sobre as adequações que a Big Frango vêm fazendo desde o início do ano (leia texto nesta página), o grupo reconhece que a emissão de fuligem e de farelo diminuiu, mas o problema ainda é grave. ‘‘A garoa de ração continua. Chegou a hora desta fábrica ser transferida. Isto aqui é uma área residencial’’, afirma Rubens Galian, que não acredita na mudança da fábrica de ração tão cedo. ‘‘Há muito tempo eles dizem isso e ainda estamos sofrendo.’’ (L.F.M.)

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