Quirera ou não, afanaram o Cincão
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Apolo Theodoro 
Na garapeira, em frente ao postinho do Banestado, nem a dona do negócio nem os fregueses percebem nada de anormal. Na pedra, bem próximo ao local do crime, os picaretas também passam batidos. Foi tudo muito rápido. Mas, sentado num dos bancos da sorveteria, ao lado da casa bancária, alguém viu quase tudo e, depois de condicionar a fala à omissão do nome, falou:
- Eu estava sentado bem aqui quando uma Quantum bordô, aro 15, rebaixado, encostou aí na frente. O carro me chamou a atenção porque, na hora de estacionar, subiu com as rodas em cima do meio-fio. Aí vi quando o motorista abriu as duas portas pro lado da calçada e ficou numa boa. Mas ele estava sozinho, acho que os outros ele já tinha deixado lá atrás. Era um molecão, estava sem camisa, de óculos escuros. Cara folgado: rebaixou o banco e ficou aí na frente curtindo o maior som. De repente, passou um velhinho correndo, parece que é funcionário do Sercomtel, e um cara de camisa azul, moreno, correndo atrás do velhinho. Era um dos ladrões.
E a testemunha completou o relato:
- Aí ele segurou o velhinho e trouxe ele de volta. Mas logo ali na frente eles encontraram os outros dois ladrões que vinham na maior tranquilidade em direção ao carro. Cada um com o malote de dinheiro numa das mãos e um 38 na outra. Um deles, inclusive, tentava encobrir o revólver com o malote, assim, ó, em cima do saco. Eles entraram no carro - um na frente e dois atrás - e um deles gritou pro motorista: Vamos lá, filho, dá partida e cai fora! Mas o molecão não se apavorou, não. Manobrou, deu ré e saiu na maior moral, na maior tranquilidade. Só faltou chupar um sorvete aqui na sorveteria.
Passando pelo posto do Sercomtel, ao lado do posto bancário, um dos funcionários confirma o apuro por que passou um seu companheiro de trabalho que presta serviço em Tamarana.
- Ele entrou aqui assustado, estava nervoso, não parava de falar. Também, não é pra menos: ele disse que estava entrando na porta do banco quando deu de cara com o ladrão. Aí, o ladrão puxava ele pra dentro, e ele queria sair pra fora tentando escapar. Até que o ladrão largou ele. Viu que apuro? Ele estava apavorado, com tanto medo que saiu pelos fundos.
Na pedra, os corretores de carros deixaram, por um momento, a picaretagem de lado e nem foi preciso insistir muito para que, como metralhadora, pipocassem acusações pra todo lado.
- Quase todo dia, durante horas, fica uma viatura aí parada. Hoje não tinha ninguém. Nessa hora a polícia some. É muita coincidência, não acha? É tudo combinado. Enquanto isso, eles ficam por aí prendendo pinguço e ladrão de galinha.
Ainda na pedra, o corretor Vicente Olavo Correia, após dar mais uma mordida na melancia, fala de duas idéias que considera supimpas para acabar com a roubalheira: construir heliportos nas agências pro dinheiro sair de helicóptero e, eureka!, acabar com o seguro que cobre o dinheiro furtado. Assim acabam os assaltos. Se roubam, o seguro cobre. Aí não adianta.
Na sorveteria, mais buchichos:
- Nessa hora os caras já estão lá no shopping comprando um presente pra mamãe.
- Que nada, cara, tem que roubar o Banco do Brasil, lá é que tá a coisa.
E os palpites continuam até que chega um outro senhor no meio da roda. Só pra se entrosar, ele conta que quase deu uma trombada com os ladrões no assalto ocorrido no início do ano, no mesmo postinho. E, dando uma risada, quase mostrando satisfação pelo roubo, diz que os ladrões entraram numa fria: Aí não tem dinheiro, não, só tem quirera. Aliás, isso aí nem agência é, é postinho, desdenha, e expõe o lado oculto da sua revolta: Ter conta aí nesse postinho? Pra passar nervoso? Vem um dia aí pra você ver a fila. E foi embora.


