Foi a falta de serviço braçal que levou João Galão a trabalhar como carroceiro na década de 40. Nascido em Viradouro, interior de São Paulo, veio para Londrina com apenas 14 anos. ''Meu tio já morava aqui e me incentivou a trabalhar com uma de suas carroças. Ou eu trabalhava como carroceiro ou ficava sem emprego'', conta.
Naquele tempo, Londrina se resumia a terra e mato. As únicas pessoas que aqui chegavam eram desbravadores. ''Eu ficava no pátio da estrada de ferro para levar os passageiros até as propriedades rurais e cidades vizinhas. Eles vinham para derrubar o mato'', lembra Galão, que não se esquece de uma família em especial. ''Certa vez, levei um pai e três crianças até a cidade de Arapongas. Foram umas cinco horas só para ir. Ninguém quis levá-los pois eles estavam sem dinheiro. Depois de 12 anos, um homem me procurou para pagar o carreto. Levei um baita susto, pois era o rapaz que eu havia carregado'', conta Galão, que entre tantas outras histórias, também se recorda com precisão de um acontecimento inédito na cidade.
Ele conta que viu duas locomotivas se chocarem bem na sua frente. ''Foi aqui na Duque de Caxias, onde antigamente existia uma cancela. Aquele acidente ficou gravado na memória'', diz ele, que também se assustava com as histórias dos desbravadores. ''Em qualquer direção que a gente olhava, só via mato. E bicho era o que não faltava. Um conhecido meu, que estava abrindo a mata de um sítio, teve as duas pernas comidas por uma onça'', diz.
Galão também foi o responsável pelo transporte dos primeiros materiais utilizados na construção da rádio Paiquerê AM. ''Tudo chegava carregado pelas locomotivas. Os cimentos dos prédios, a comida dos armazéns, tudo. E as únicas pessoas que faziam os transportes eram os carroceiros'', comenta ele, que recentemente recebeu um diploma de reconhecimento público da Câmara de Vereadores.
Hoje, com 81 anos, é síndico e porteiro do prédio onde mora e diz que não quer parar de trabalhar tão cedo. Para ele, o trabalho ajuda a manter bons pensamentos na mente, principalmente as lembranças daquele tempo, que ele não quer esquecer jamais. ''A saudade é muito grande. Mesmo com as dificuldades, naquele tempo era mais fácil viver e ser feliz'', ressalta Galão, pai de três filhas (uma falecida), cinco netos e uma bisneta.

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