Quibe e sopa paraguaia na mesa do churrasco
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quarta-feira, 26 de setembro de 2001
Emerson Dias 
''Em Foz do Iguaçu todo mundo vive em hotel!'' Essa frase (um tanto exagerada, é verdade) costuma ser pronunciada entre moradores da região central. Entre grandes hotéis e pequenas pousadas do terceiro maior pólo hoteleiro do País, existem 242 estabelecimentos destinados ao turismo de lazer, negócios, eventos ou simplesmente aos milhares de sacoleiros que aportam todos os dias na velha fronteira, atrás de quinquilharias ''made in Paraguay''.
A cidade, que chegou a registrar mais de 30 mil compristas circulando diariamente pela Ponte da Amizade, teve esse número reduzido nos últimos anos para menos da metade (cotação do dólar em alta e maior rigor na fiscalização da aduana foram alguns dos vários fatores que provocaram tal baixa). Resultado: estão sobrando quartos e apartamentos em tudo quanto é canto! E com direito a banheiro privativo, frigobar e ar-condicionado!
Entre os ''mensalistas'' de Foz, moradores perdidos na evolução das habitações, do aparthotel ao quitinete, concentra-se uma gama de personagens anônimos. São ''laranjas'' e ''formiguinhas'' (pessoas que passam mercadoria ilegal caminhando sobre a Ponte da Amizade), funcionários de lojas paraguaias (portanto, sem registro profissional), aposentados, atletas, universitários, jornalistas, guias de turismo... São tantos ''grupos sociais'' que seria impossível descrever todos. Mas vale destacar uma categoria bastante comum em Foz: os imigrantes que vivem ilegalmente no Brasil. Árabes, chineses, paraguaios e argentinos são a maioria, mas é possível encontrar europeus e africanos fugitivos de guerras civis.
Aos domingos, as piscinas dos ''hotéis-cortiços'' ficam lotadas de peles coloridas, dividindo espaço em um ambiente babilônico digno de grandes metrópoles cosmopolitas. É comum ver grupos ''poliétnicos'' cantando em rodas de samba, carne nas churrasqueiras e mesas postas para o almoço cheias de linguiça, quibe e sopa paraguaia (uma torta salgada deliciosa feita à base de queijo e mandioca). As melhores cenas, no entanto, são projetadas das trucadas, onde reinam discussões em diversas línguas. Os brasileiros - experts por natureza no jogo criado por eles - batem boca com duplas libanesas e paraguaias, que usam o árabe e o guarani para garantir vitórias frequentes sobre os anfitriões. ''Poxa! Ditar as cartas na língua de vocês é sacanagem'', defende-se um brasileiro. A sacanagem pode até ser verdade. Mas uma trapaça divertida jamais estraga um domingo qualquer na fronteira...


