Sábado a tarde, shopping cheio, bancos e poltronas são disputados por quem deseja descansar um pouco. Entre uma parada e outra, pode acontecer que alguém esqueça algo. Bolsa, sacola, blusa, óculos, chaves, celular, etc. Quando sente falta, a pessoa refaz todo o trajeto por onde passou, na esperança de ser mais rápido que os outros e reaver o que perdeu.
Foi o que aconteceu com Soraia Lúcia Victorino Martins, dona de uma loja em um shopping em Londrina. Ela esqueceu uma sacola com jóias, que tinha acabado de comprar, em um banco no corredor próximo à sua loja. As peças seriam usadas em um casamento no mesmo dia.
''O desespero toma conta da gente. Pelo valor, porque eram pulseiras e brincos, peças caras e únicas, e também porque não foi uma compra por impulso, eu havia escolhido de acordo com a roupa que usaria. Não haveria tempo de encontrar outro acessório'', afirma.
Angustiada, Soraia passou pela central de informações do shopping, mas ninguém havia deixado nada por lá. Correu então para a loja onde havia feito as compras e, para sua alegria, um casal estava devolvendo as jóias. ''Quando vi que estavam entregando fiquei emocionada. Ainda existem pessoas honestas.''
Elaine Cristina Davanzo Lopes, funcionária da loja, ficou admirada. ''Atitudes como essa são raras. Demonstram os princípios e a honestidade da pessoa. Com certeza foi um exemplo que o casal deu para os seus dois filhos, que estavam com eles''.
Desconfiança
Já a secretária executiva Rúbia Lourenço conta que uma vez achou um celular no chão de um ônibus. Ao se abaixar para pegar e perguntar quem havia perdido, sentiu que as pessoas olhavam com desconfiança. Rúbia procurou na agenda do celular alguma referência ao dono e encontrou um registro com o nome 'mãe'.
Quando ligou para avisar que estava com o celular e que devolveria, a pessoa que atendeu demonstrou medo que fosse algum golpe ou tipo de assalto. A secretária decidiu marcar no local onde trabalhava para fazer a entrega. ''É constrangedor quando você decide fazer o bem e há desconfiança. Acredito que as pessoas têm essa atitude por outros momentos que viveram e que geraram algum trauma''.
Questão de formação
Segundo o psicólogo Júlio César Camacho Arrebola, em casos de achar ou perder algo, cada pessoa reage de acordo com sua história de vida, dos padrões éticos e morais. ''A decisão de devolver já está na pessoa. Não é natural a pergunta: devolvo ou não devolvo?, é uma questão de formação. Quem tem inclinação para não devolver, geralmente nem se questiona'', explica.
Para quem perdeu um objeto, a tensão que toma a pessoa é geralmente medida pela experiência de vida da pessoa. ''As pessoas mais novas tendem a se agitar mais, a ficar mais ansiosas. A vovozinha gosta de dizer com calma 'Deus dará em dobro', já o adolescente perde a cabeça, acha que acabou o mundo''.

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