Albari Rosa




As 23 mulheres internas se orgulham de ter seus quartos arrumados e limpos (foto superior), e contam as mesmas histórias de acessos de loucura dos homens. No dia-a-dia, as atividades incluem leitura, canto, desenho e cozinha (foto inferior)




O corredor de paredes bege de uma das alas do Complexo Médico Penal conduz ao único contato que os internos têm com atividades comuns no mundo do lado de fora. São salas de aula, bibliotecas, teatro, espaços de convivência. Nas ‘celas’, que o diretor geral Carlos Alberto Peixoto Baptista prefere chamar de ‘enfermarias’, há umas poucas televisões, revistas e cartas que alguns privilegiados receberam de seus parentes. Eles passam a maior parte do dia nos corredores gradeados, fumando, conversando. Acordam e dormem cedo e se distraem aprendendo a ler, cantar, desenhar e cozinhar.
São ao todo 45 ‘enfermarias’, divididas entre as alas masculina e feminina. As diferenças são gritantes: nos quartos dos homens, cobertores pendurados; nos das mulheres, camas esticadas e chão varrido. ‘‘Eu empurrei minha mãe contra o muro mas não foi para machucar’’, conta Vera Lúcia, internada há cinco anos, umas das 23 doentes. ‘‘Eu não matei meu enteado, foi Deus que tirou ele do mundo’’, diz Maria de Lurdes.
Entre os mais de 300 homens, os crimes são contados com a mesma espontaneidade. Facas e espancamentos aparecem com frequência nos relatos. ‘‘Nenhum doente mental consegue premeditar um crime e o ato de violência é sempre uma resposta imediata e irracional’’, explica Peixoto.
Os atingidos pela violência são familiares, vizinhos, pessoas que tenham contrariado o doente. ‘‘O que aconteceu antes de você vir para cá?’’, pergunta a psicóloga para José Ambrósio. ‘‘Eu trabalhava na roça e matei um homem com 37 facadas’’, responde ele.
A maioria dos internos é pobre, vinda de áreas rurais. ‘‘Quero ir embora e voltar a plantar couve e alface’’, diz o ex-agricultor Eduardo, que, depois de 17 anos de internação por ter esfaqueado o pai, sorri ao lembrar da consistência da terra, ‘‘escura e macia’’. Tinha mulher e filhos, para quem chegou a escrever há alguns anos. ‘‘Eles não responderam; acho que estão morando muito longe’’, diz. Eduardo nunca recebeu visitas nem telefonemas. Deveria ter voltado para casa há dez anos.

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