‘‘Quero que o pesadelo acabe logo’’


Albari Rosa

Albari RosaCelina: ‘‘Quando voltar a Guaratuba o povo vai me carregar no colo’’Folha - Vocês se consideram preparadas para o julgamento?
Celina - Acho que ninguém nunca deve se sentir preparado para responder por um crime que não cometeu. Mas estamos tranquilas e confiantes porque temos a verdade do nosso lado. Temos certeza que seremos inocentadas e que esta farsa será desmascarada. A verdade, enfim, triunfará.
Folha - Vocês estão ansiosas para o início do júri popular?
Celina - Estamos rezando para que este dia chegue logo para que este sofrimento acabe. Cada vez que recebíamos a notícia de que o julgamento seria adiado, recomeçava nossa tormenta.
Folha - Como está sendo o período de prisão domiciliar? Quantas vezes vocês puderam sair de casa nos últimos dois anos?
Beatriz - Só podemos sair com autorização judicial para ir ao médico e ao dentista. Por isso queremos que este pesadelo acabe logo para termos de volta nosso direito de ir e vir. Pelo menos em casa podemos ficar na companhia da família.
Folha - E durante o período em que vocês ficaram presas na penitenciária?
Beatriz - Demorou algum tempo para que as outras detentas confiassem em nós e entendessem que não tínhamos qualquer culpa nesta história. No início, éramos mal tratadas pelas outras mulheres e recebíamos chutes nas pernas por baixo da mesa, na hora das refeições. No final já éramos amigas de todas as detentas e elas confiavam na nossa inocência.
Beatriz: ‘‘Se nós não o matamos, então ele (Evandro) está vivo’’
Folha - Vocês têm certeza de que serão absolvidas?
Celina - Toda a certeza do mundo. Há erros grosseiros em todo o processo, falhas que ninguém quis ver na época. Até hoje não entendo por que aquele cidadão (Diógenes Caetano, tio de Evandro e primeira pessoa a ligar a morte a um ritual de magia negra) envolveu nosso nome nisso.
Folha - Na época foi dito que o crime teria ocorrido por questões políticas, uma espécie de vingança. Havia razão para isso?
Celina - Meu marido sempre teve adversários políticos, mas nunca inimigos. Este cidadão que nos acusa (Diógenes) sempre teve, não sei por que, divergências maiores do que apenas uma divergência política. Não consigo entender a razão de tudo isso. Nossas famílias eram amigas, eu conhecia a mãe e o pai dele.
Folha - Havia alguma briga pessoal entre vocês que pudesse justificar uma denúncia falsa?
Celina - Eu até acho que ele deve ter feito esta denúncia sem imaginar que as coisas tomariam este rumo e esta proporção. Depois que a coisa já estava feita e não tinha mais como voltar atrás, acho que ele resolveu manter a farsa.
Folha - Como uma denúncia infundada poderia ter se transformado em uma acusação tão séria?
Celina - Havia muitas divergências entre as Polícias Militar e Civil na investigação do caso e acabamos nos transformando em bode expiatório deste problema.
Folha - A senhora se considerada vítima de uma armação montada para justificar erros das polícias?
Celina - Sem dúvida. Foi uma boa para ele (o governo) envolver uma mulher, esposa do prefeito, para desviar a atenção da sociedade para aquilo que todos estavam cobrando. Fomos uma desculpa utilizada pelo governo para justificar o grande número de crianças desaparecidas. Nos transformamos numa boa oportunidade para que eles fizessem isso e distraíssem o povo.
Beatriz - O absurdo foi tão grande que o secretário de Segurança da época, José Moacir Favetti, nos acusou de sermos responsáveis por todas as crianças desaparecidas no Paraná.
Folha - E a confissão que foi feita por vocês alguns dias antes da prisão, na qual vocês assumiram a autoria do assassinato?
Beatriz - Desde o início eu denunciei que aquilo tudo tinha sido feito sob pressão. Fomos encapuzadas, levadas para uma chácara distante e fomos até mesmo dopadas. Me mandaram tomar um líquido amargo, que tinha um gosto parecido com vinho. Depois começaram a nos ameaçar e torturar.
Folha - Que tipo de tortura vocês sofreram?
Beatriz - Olha, sobre este assunto a gente preferia não falar. Vamos ter que lembrar de tudo isso de novo na hora do julgamento, então eu preferia deixar hoje esta parte de lado...
Celina - Não é porque a gente tenha medo. É que é uma lembrança que nos deixa muito tristes (chora). Eu quero falar nesse assunto pela última vez no dia do julgamento.
Folha - A senhora acha que seu marido morreu em decorrência deste problema?
Celina - Tenho certza que sim. Ele adquiriu uma úlcera nervosa com toda esta confusão e a úlcera se transformou em um câncer. Mas lutou até o último dia pela nossa inocência.
Beatriz - E morreu achando que já tínhamos sido inocentadas porque mentimos para ele.. (chora)
Celina - (chorando) Antes dele morrer eu disse ‘‘Pai, acharam o menino’’ e ele ficou tranquilo.
Folha - E quem pode ter matado Evandro?
Beatriz - Não sei, mas tenho certeza que ele está vivo. Se nós não o matamos, então ele está vivo.
Folha - Quando esta história terminar, vocês pretendem voltar para Guaratuba?
Beatriz - Nunca mais. Eu quero tentar esquecer tudo isso.
Celina - Eu vou voltar porque amo aquela terra. E quando voltar não vou nem conseguir colocar os pés no chão porque o povo vai me carregar no colo.

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