Quando criança, Ricardo Frutuoso Borges, 30 anos, sonhava em ser policial. A necessidade de sobrevivência o levou até à profissão de gari. E o que podia ser frustração, virou orgulho. Trabalhando mais de sete horas sob sol intenso, varrendo o lixo das ruas e retirando o mato das calçadas, ele garante: ‘‘É uma boa profissão. A gente trabalha em equipe e geralmente somos bem recebidos pela população. Tem até quem nos ofereça café, nos dias mais frios.’’
  Dos tempos em que trabalhou na construção civil e no açougue de um supermercado, ele não tem muita saudade. ‘‘Aqui a gente tem mais segurança’’, justifica. Pai de duas meninas, Borges tira em torno de R$ 600,00 por mês. ‘‘Dá para viver bem. Não tenho do que reclamar. Tem muita gente que trabalha em lojas e no conforto de escritórios que não ganha isso.’’ Quanto ao sonho de trabalhar na polícia, ele se conforma: ‘‘Prefiro trabalhar quietinho por aqui...’’
  O gari confessa, porém, que já sofreu com o preconceito. ‘‘No começo me sentia diminuído. Via os amigos de infância em outras profissões e me sentia mal, mas aprendi a gostar, e hoje já penso até em me aposentar trabalhando nas ruas.’’ Hoje Londrina só tem homens limpando as vias centrais e quatro bairros (Vila Nova, Vila Recreio, Parque Guanabara e Vila Brasil). Isso, segundo Borges, causou estranheza da população, que há três anos e meio via várias mulheres na profissão, as chamadas ‘‘margaridas’’, contratadas através da extinta Frente de Trabalho da prefeitura. ‘‘De vez em quando ainda nos chamam de margaridos’’, diverte-se.
  Borges tem a noção exata da importância de sua profissão. ‘‘Se não fossem os garis, a cidade seria uma imundície.’’ Ele tem razão. Diariamente, segundo dados da Eco System Serviços Urbanos, são recolhidos das ruas e praças cerca de 1,6 mil sacos de 150 litros com folhas secas e sujeira. Um volume que só tende a aumentar, diante da falta de consciência dos que fazem das ruas sua lata de lixo.

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