'Quero a chance de fazer igual a todo mundo'
As donas de casa Marina Komar da Silva e Syrlene Ferreira de Souza testemunharam cenas quase idênticas, embora não estivessem juntas quando viram o acontecimento. Um casal de surdos estava num posto de saúde e tentava de todas as formas se comunicar com um atendente. ''Eles tentavam, tentavam, mas não havia jeito do funcionário entender o que eles queriam'', diz Marina.
Syrlene é mãe de Guilherme, 16 anos. Marina é mãe de Douglas, 10. Os dois jovens são surdos. Marina sabe que vive numa sociedade que não dá a devida atenção aos deficientes auditivos. ''As pessoas não se interessam por Libras porque não sentem o problema na pele. Eu mesmo não conhecia antes de ter o Douglas'', afirma ela.
Marina tem ciência de que seu filho terá privações porque vai crescer numa sociedade na qual poucos entendem a língua que ele domina. E aí? ''Vamos fazer de tudo. A gente vai sofrer junto'', suspira a mãe. Elisabete Alves Ferreira dos Santos, funcionária da Apadal, é mãe de André, 17 anos. O adolescente é um dos sete surdos que este ano começaram a estudar no IEEL.
''Ele quis (migrar para o ensino regular). Eu tive medo, mas o apoiei. Ele está completamente adaptado no IEEL. Os alunos ouvintes estão aprendendo um pouco de Libras com ele, os professores estão se interessando. O sorriso dele parece dizer 'Eu consegui, o mundo me aceitou'', comenta a mãe.
Aceitação, que rima com inclusão, é tudo que Ana Paula Moisés, 22 anos, deseja. Ela concluiu o ensino médio há três anos. Fez curso de informática, mas não consegue emprego porque é surda. Já fez testes em várias empresas e não conseguiu vaga. Ela reclama que, quando conseguem entrar no mercado de trabalho, surdos ficam apenas com o trabalho braçal.
A faculdade é um sonho. ''Quero fazer pedagogia para trabalhar com crianças surdas, mas não consigo entrar na faculdade porque no vestibular não há intérprete de Libras'', disse a jovem à reportagem da Folha, com o intermédio de uma intérprete.
A dificuldade dos surdos em fazer provas escritas reside no fato de que o português é sua segunda língua para fazer testes, a presença de um intérprete facilita. A também surda Karina Paula Silva, 22 anos, recentemente prestou um concurso público. Perdeu pontos numa questão porque não conseguiu ler a palavra ''impressora''.
''É claro que eu sei o que é uma impressora. Mas na hora não soube decifrar a palavra escrita. Se tivesse um intérprete, teria acertado a questão'', diz Karina, também com a ajuda da intérprete. A falta de intérprete, além de minar as chances de surdos em concursos públicos e vestibulares, impede que eles passem na prova escrita para tirar carteira de motorista. ''Não quero nada de graça, quero a chance de fazer igual a todo mundo'', afirma Karina.
A jovem atualmente está completando o ensino médio no Sesc, e seu próprio pai, José Luiz Nunes, presidente da Apadal, é seu intérprete. Karina diz que sua rotina no ensino regular é absolutamente normal: brinca com os amigos ouvintes, faz piadas, sai para dançar à noite. Como Ana Paula, ela sonha em fazer faculdade quer cursar administração de empresas.
''Eu quero me sustentar, quero casar, ter filhos. Como qualquer pessoa'', diz ela. Karina e Ana Paula são jovens normais. A sociedade excludente parece querer dizer o contrário. (F.G.)





