Quentinha dos presos surpreende pela qualidade
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
É sempre assim: toda vez que estoura uma rebelião ou tumulto nas cadeias de Londrina e região, a comida dos presos se torna vilã. ''Porcaria'' e ''lavagem'' são os termos mais delicados usados para definir as quentinhas e justificar o protesto dos detentos, lado a lado com a superlotação e a falta de higiene. Afinal, o que há dentro das milhares de embalagens de alumínio que chegam todos os dias às carceragens?
Nada melhor que uma garfada para começar a responder essa pergunta. A reportagem visitou o 5º Distrito Policial (DP) de Londrina (Zona Norte) na hora do almoço e experimentou a marmita servida para os quase 100 detentos que se espremem no local. O cardápio do dia incluía arroz, feijão, farofa, quiabo, carne moída e salada de acelga, em quantidade suficiente para saciar a fome de um adulto forte. O sabor? Superava o de muitas marmitas que um cidadão em liberdade pode adquirir em restaurantes londrinenses. E o quiabo nem tinha baba.
''Tem muito bóia-fria que trabalha duro o dia inteiro e não tem um décimo disso para comer. É comida gostosa, variada e nutritiva. Eu mesmo como. E o pessoal dos Direitos Humanos poderia vir para conferir isso também'', aponta o delegado do 5º DP, Airton Simplício, comprovando o argumento às mastigadas. As opiniões que vêm detrás das grades também diferem muito das que costumam ser dadas em dias de ânimos exaltados. ''A gente faz outra idéia antes de vir para cá. Pelo menos da comida eu não tenho reclamação'', observa o detento Cláudio, 34 anos. ''Não é melhor que a comida da minha mãe, mas para mim é boa'', diz Jonis, 47 anos, que aguarda com ansiedade os domingos de frango assado.
Na saída do DP, dois testemunhos mostram que é preciso provar a quentinha dos presos para desmistificar a má fama. ''Essa lavagem que eles comem? Não, nunca experimentei'', fala a mãe de um preso, que já ouviu ''horrores'' sobre a alimentação dos distritos e prefere não se identificar. Fabiana Francisca da Silva, 23 anos, mulher de detento, intervém: ''Eu comi a marmita um dia e achei muito gostosa. Eles sofrem muito aí dentro, mas não pela comida''.
A empresa que produz as refeições dos quatro distritos policiais que abrigam presos em Londrina é a mesma responsável pela alimentação da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Os presos sob custódia da Polícia Civil amargam algumas desvantagens em relação aos colegas já condenados: nos DPs há apenas almoço e janta, sem café da manhã, nem sobremesa. Já a PEL acorda os detentos com pão e manteiga todos os dias, entre as 6h30 e às 7 horas, acompanhado de café ou chá. Às segundas, tem doce (paçoca, pudim, maria-mole) depois do almoço; às quartas, uma fruta; sexta-feira, gelatina.
Carne nunca falta no menu, tanto nos DPs como na PEL. Entre os pratos servidos no dia-a-dia, há iguarias como macarrão à primavera, cuscuz de legumes, frango xadrez, batata sauté, dobradinha e picadinho ao molho. As saladas também são variadas, podendo incluir rabanete, almeirão, beterraba, pepino, escarola, acelga, repolho e até tabule, tradicional iguaria árabe.
''Diria que a maioria dos presos come melhor aqui do que comia em casa, principalmente por serem pobres. Você vê muitos que entram aqui debilitados, porque ficavam só na droga, e saem encorpados'', diz o auxiliar de segurança responsável pela alimentação na PEL, Mário Sérgio Satiro.


