Eles são meninos de 16 ou 17 anos, moram com os pais (ou pelo menos a mãe), têm renda familiar de até dois salários mínimos e cometem atos infracionais como furto, roubo e tráfico de drogas porque querem comprar aquele tênis, boné ou roupa de marca e frequentar os mesmos lugares que os outros jovens. Simplificadamente, este é o perfil da maioria dos adolescentes que cometem atos infracionais em Londrina, segundo informações coletadas pelo projeto Murialdo, da Escola Profissional e Social do Menor de Londrina (Epesmel), que trabalha com esse público. ''Eles ficam muito vulneráveis nessa faixa etária, evadidos do sistema escolar e sem perspectiva de inclusão no mercado de trabalho ou de futuro'', explica Jaqueline Micali, coordenadora do projeto.
O levantamento tomou como base os 600 adolescentes atendidos pelo projeto em 2007, sendo 470 em liberdade assistida e o restante condenado a prestar serviços à comunidade. ''Alguns até consomem drogas e se envolvem com o tráfico, mas a maioria usa a droga como meio de consumo, para diversão'', explica, complementando que apenas 4% dos atendidos em 2007 eram realmente viciados.
''Eles praticam o ato infracional para poder consumir o mesmo que todo mundo. A sociedade é antagônica. Incentiva o consumo, mas não dá condições a todos. Então eles se sentem excluídos e tentam conseguir as coisas que querem ter por outros meios. É uma maneira de tentar se incluir na sociedade que o exclui'', analisa, acrescentando que, embora isso não justifique o ato infracional, ajuda a compreender quem é e quais são as motivações desse adolescente.
Assim, a maior descoberta do projeto é que não se pode generalizar. Foi através do tratamento individualizado, respeitando e valorizando a história de cada um, e do incentivo ao jovem para que ele seja o protagonista da própria história, que o Murialdo conseguiu reduzir pela metade o índice de reincidência desses adolescentes, de 32% em 2003 para 16% em 2007. ''Isso só foi possível graças a um plano de atuação direcionado e envolvendo a Secretaria de Assistência Social, a Secretaria Estadual da Infância e Juventude, Polícia Militar e Núcleo Regional de Educação'', salienta a coordenadora, acrescentando que, para continuar obtendo bons resultados, além do trabalho em conjunto, políticas públicas efetivas de inclusão são essenciais.
O projeto oferece atendimento diferenciado e personalizado, que inclui terapia familiar, atendimento psicológico, orientação aos pais, oficinas de grafitagem e hip hop, oficina de artesanato para as mães e outras iniciativas. Trinta agentes comunitários ainda prestam atendimento nas casas desses jovens.
Cada plano de atuação é montado juntamente com o adolescente, que decide o que pretende fazer. ''Mesmo a prestação de serviços não é braçal, mas sempre na parte cultural ou de cidadania e junto a instituições cadastradas, em que ele vai promover, por exemplo, um bingo com idosos, uma rua de recreio, pintar e grafitar um muro. E todas as decisões são tomadas em grupo'', explica a coordenadora. O jovem é liberado após a conclusão do serviço.
Outra alternativa é o projeto Adolescente Aprendiz, em que o jovem recebe meio salário mínimo e capacitação para trabalhar uma vez por semana em empresas estatais como Copel e Sanepar. O trabalho do projeto prioriza ainda a reinserção do adolescente na escola. Caso ele não cumpra as suas próprias metas no prazo estipulado, esse prazo é prorrogado e pode chegar a até um ano e meio. Tudo depende do próprio adolescente. ''É uma forma de esse jovem perceber que tem muita coisa boa, que pode fazer o bem. É claro que não temos a pretensão de recuperar 100% dos adolescentes, mas os resultados mostram que o trabalho tem surtido efeito'', analisa Jaqueline.

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