'Quem quer porradinha?'
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segunda-feira, 05 de agosto de 2002
Telma Elorza<BR>Reportagem Local 
Aquela churrascada começou cedo. Às 11 horas chegaram os primeiros amigos. Bate-papo, risadas e a primeira caipirinha do dia, junto com a cerveja, ''para refrescar''. Ela, sem perder a mania de dona-de-casa, preocupava-se: ''E a salada, quem faz?''. Como ninguém se manifestava, assumiu a tarefa.
E corta que corta cebola, tomates, cheiro verde. ''Cadê o limão?'', gritou. Puseram a caipirinha de vodka na mão dela. Para não perder a calma ''relaxa, Marcinha, relaxa que cê tá aqui para se divertir'' , bebeu mais um pouquinho.
Mas não tinha jeito. Não deixava de conferir se a carne estava sendo assada direito, se todo mundo tinha copo na mão, se a cerva estava gelando certinho. Lá pelas tantas, depois de quase deixar louco o churrasqueiro contratado ''quer ensinar o padre a rezar a missa!'' foi expulsa da área.
Desconsolada, sentou quietinha na roda mais animada. Outra caipirinha rodou até chegar nela. Bebeu, fazer o quê? Ninguém parecia precisar de sua ajuda.
Na quarta rodada de caipira, começou a se soltar. Arriscou uns passos de forró com um amigo, dançou com outro, soltou a voz na roda de samba que lógico se formou.
Até que alguém lembrou de uma bebida antiga, dos tempos de faculdade. ''Quem quer porradinha?'', gritou um, misturando a vodka com refrigerante de limão e dando o 'soquinho' para misturar os dois. Como todo mundo se animou, ela também quis relembrar a bebida. Bebeu duas doses seguidas.
Na segunda-feira, teve que aguentar a gozação dos colegas de trabalho. ''E aí, hein? Dançou em cima da mesa, né?''. Até quem não pôde ir ao churrasco comentava alegre como se tivesse visto o vexame. ''Na boquinha da garrafa, hein? Coisa feia, amiga'', era o mais leve dos comentários.
Sem lembrar direito das baixarias que tinha cometido depois da segunda dose, ela teve que aceitar calada e rir todo tipo de piadas sobre o churrasco por dias e dias a fio.
Quando os amigos vieram convidar para mais uma rodada de carne e cerveja, já avisando que teriam algumas garrafas de vodka e refrigerante de limão exclusivamente para ela, sorriu amarelo, mas manteve a classe. E prometeu em alto e bom som: ''Não misturo mais bebida. Pode esquecer o refrigerante''.


