Quem nunca teve inveja, atire a primeira pedra
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segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
''Podia-se controlar a cobiça e acalmar a ira. Seria possível sublimar a luxúria e saciar a gula; o orgulho não chegava a ser mortal e a preguiça não era um estado irreversível. Mas a inveja, não, ela era inesgotável, um eterno descontentamento consigo mesmo''. A definição do jornalista Zuenir Ventura, no livro Mal Secreto, é um tanto cruel, mas verdadeira: quem nunca sentiu inveja na vida, que atire a primeira pedra.
''Todo mundo é um pouco invejoso, mesmo lá no fundo, mas não gosta de admitir'', diz a estudante Rebecca Carolline Moraes da Silva, 13 anos. Ela mesma confessa já ter invejado algo ou alguém. ''Já fiquei triste, pensei em fazer loucuras'', conta a garota, sem revelar o que tanto invejou.
''Tem aquela pequena invejinha que a gente nem percebe'', brinca a aluna Desirée Napoli Machado, 13. ''Quando criança a gente tem inveja do brinquedo do amigo. Quando cresce passa a invejar outras coisas, o corpo, a roupa, o namorado.''
''A pessoa precisa se contentar com o que tem, mas tem muita gente que não se valoriza e quer ter o mesmo que o outro'', analisa o estudante Giovani Mattos, 13. Apesar de já ter sentido inveja, ele diz nunca ter feito loucuras para alcançar o objeto de desejo. ''Você pensa direito e deixa quieto.''
Para Felipe Kloc, 13, invejar o outro ou não ''é uma questão de educação''. ''E de base familiar'', complementa Camila de Roma Bordinassi, 13. ''Meus pais me ensinam a valorizar o que eu tenho'', reforça Giovani.
Sem medo, os adolescentes Rebecca, Desirée, Giovani, Felipe e Camila, alunos da sexta série do ensino fundamental da Escola Educativa, de Londrina, definiram a inveja como um sentimento dúbio mas normal entre os seres humanos.
''Nem todo mundo admite sentir ou já ter sentido em algum momento da vida, mas não há o que temer. Qualquer um já sentiu inveja e isso é mais saudável do que se pode imaginar'', explica o psicanalista Ailton Bastos.
Para ele, ter inveja é, na verdade, uma questão de identidade. ''A pessoa não se julga merecedora de algo e por não merecer, desdenha o do outro'', afirma.
Em muitos casos, adverte Bastos, a pessoa perde o controle e acaba por prejudicar o outro. ''Isso é comum até mesmo entre pais e filhos. O pai sente inveja do sucesso do filho fora de casa e começa a sabotá-lo, inventando problemas para que ele volte. Nem sempre o filho retorna, mas acaba convivendo com o problema para sempre.''
O psicanalista adverte que as atitudes invejosas, quase sempre, são inconscientes e dissimuladas. A fofoca, ressalta, é uma manifestação clássica da inveja. ''A pessoa se sente mais confortável quando denuncia algo que outro indivíduo fez, mas que, na verdade, ela mesma não teve coragem de fazer'', diz.
Mas há outros caminhos para os invejosos, ressalta Bastos, entre eles o do crescimento. ''Você pode desdenhar, se resignar ou tomar o outro como exemplo e tentar alcançá-lo ou até mesmo superá-lo.'' Nesse caso, a inveja boa, que Bastos prefere definir como comparação, passa a ser positiva. ''A pessoa amadurece.''
Segundo ele, a inveja também está ligada à capacidade do ser humano de buscar novos desafios. ''Quando você se considerar completo pode crer que começará a regredir, morrer aos poucos'', constata. O incompleto, o inadequado é que garante a possibilidade de crescimento. ''Tem tanto que ainda não sei'' é a frase ideal para espantar a inveja e crescer, sugere Bastos.


