Com sua voz forte ele consegue se destacar em meio à barulheira do Calçadão de Londrina. Talvez você já o tenha visto ou ouvido. Trata-se de um homem negro, que leva nas mãos uma bíblia e uma trombeta. Ao melhor estilo dos profetas do Antigo Testamento, prega o Evangelho. Brada a toda garganta que Jesus Cristo está para voltar e que não é tarde para o arrependimento. Soa a trombeta de forma estridente. Divide opiniões. Um homem disse à fotógrafa da FOLHA que rasgaria o jornal se a matéria com o ''profeta'' fosse publicada. Outro simplesmente parou e lhe deu R$ 20 em agradecimento pela pregação. ''É um louco, um louco'', comentou uma senhora que passava por perto.
Convidado a revelar quem é, ele primeiro disse que não dá entrevistas, para logo em seguida tomar a decisão de conversar com o repórter. ''Meu nome é Rogério''. Do quê? ''Da trombeta''. É só isso, ele prefere não revelar o nome civil sob a justificativa de que o importante é que seja enfocado o trabalho de evangelização.
Mas a idade ele diz: 47 anos. Em seguida, deixa o tom de pregação. Falando de um jeito tranquilo e pausado, relata sua sina: nascido na cidade de Barra Mansa, que fica no sul do Rio de Janeiro, abandonado pelos pais, passou parte da infância em orfanato até ser adotado por uma tia. Ficou solitário os 14 anos, quando a mãe adotiva, que era costureira, morreu. Conheceu as drogas, com as quais gastou toda a sua pequena herança. Roubou. Caiu no mundo, andando feito mendigo, correndo o ''trecho'' de cidade em cidade, entre elas Londrina, onde ficou até os 17 anos, quando foi mandado pelo Conselho Tutelar de volta ao Rio de Janeiro, para junto do pai que havia sido localizado.
Voltou a roubar. Foi hippie, tatuador, comeu comida do lixo. Caiu na estrada mais uma vez. Foi julgado à revelia e condenado. Cinco anos de cadeia. ''Quando saí da prisão, vi que a vida que eu estava levando não era digna. Procurei a igreja evangélica e encontrei a conversão'', conta, narrando uma história que não pode ser checada.
Ele explica que, convertido, elegeu Londrina para escutar suas palavras anunciadoras de que ''Deus tem uma missão para esse lugar. Um grande evento vai acontecer na cidade'', porém diz não se considerar um profeta, apenas ''uma voz''. E aqueles que te chamam de louco, Rogério? ''É normal esse tipo de reação das pessoas. Fico feliz até pelos que me xingam, pois sei que pelo menos estão me ouvindo'', responde. Sobre a trombeta, explica que a estratégia é copiada de um outro pregador que conheceu e que também usava o instrumento para chamar a atenção do povo.
De vez em quando, o homem desaparece por um tempo do Calçadão. Segundo ele é porque o trabalho de monitor em uma clínica de recuperação de dependentes químicos aperta. A voz também precisa de um descanso de vez em quando. Enfatiza que não recebe dinheiro de nenhuma igreja. Vive apenas do que ganha trabalhando e das ''ofertas'' que pintam vez ou outra.
Questionado se é preciso coragem para ser um pregador e enfrentar olhares e palavras de reprovação, ele diz que sim, mas faz um pedido. ''Não quero ofender ninguém, nem nenhuma religião. Só digo o que está na bíblia. As pessoas podem confirmar lá tudo o que digo''.
Termina a entrevista. Ele volta a falar alto, aos gritos. ''Jesus está voltando! Conserta sua vida antes que seja tarde!''. E soa a trombeta.

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