''Quem doa sangue dá a vida''
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segunda-feira, 02 de abril de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Cambé - Nem a distância nem a idade e a pressão alta impedem que o vendedor de livros Admízio Raimundo de Souza, 58 anos, saia de sua casa, em Cambé (13 km a Oeste de Londrina), e venha até Londrina para fazer algo em benefício de outras pessoas e sem receber nada em troca. Ele é doador de sangue desde os 19 anos de idade e tem como compromisso a doação a cada três meses, como é permitido para os homens.
''Comecei a doar porque a empresa em que eu trabalhava na época convocou os funcionários que quisessem participar de uma doação. Fui a primeira vez e nunca mais parei. Acredito que o maior amor que a gente pode ter é aquele que a gente dá a vida pelo semelhante. É isso que faz quem doa sangue: dá a vida'', diz Admízio, mais conhecido como Pernambuco.
Nesses 38 anos de doação, sempre feitas no Instituto de Hematologia de Londrina e no Hospital Universitário, ele já recebeu várias críticas pelo hábito solidário. ''Teve um senhor que me falou que achava uma loucura doar sangue, que eu poderia ficar doente por causa disso . Ele me disse que tinha diabetes e que teria pego a doença numa doação de sangue que fez. Mas sei que isso não existe. Ninguém fica doente doando sangue. O controle nos hospitais é muito grande. Eu nunca tive problemas'', garante.
No Ihel, Admízio já é conhecido de todos os funcionários. ''Eu venho várias vezes porque algumas não consigo fazer a doação por causa da pressão alta. Aí espero uns dias e volto'', explica.
''Ele já fez 26 doações nos últimos dez anos. É graças a pessoas como ele que nós conseguimos realizar nosso trabalho. Quando a falta de sangue é muito grande, convocamos esses doadores frequentes para nos ajudar'', afirma o hematologista Jorge Tadeu de Assis, médico do Ihel.
Segundo ele, são necessários uma média de 100 doadores diários para garantir o bom atendimento. ''O sangue colhido aqui é utilizado pelos hospitais da cidade e da região também. Para se ter uma idéia, uma cirurgia cardíaca requer cerca de 20 doadores. Já tivemos pacientes que precisaram de 120 bolsas de sangue. O consumo é grande e nunca temos sangue estocado. O ideal seriam mil bolsas de reserva para atendermos uma emergência'', garante.
A consciência de que o sistema é ruim é o principal motivo que faz com que o Admízio continue doando sangue. ''Meus filhos às vezes reclamam e dizem que eu deveria parar, por causa da pressão alta e do tempo que eu faço isso, mas vou continuar até chegar aos 65 anos. Sangue é algo muito importante e não existe nada que o substitua. As pessoas precisam doar, ajudar ao próximo'', ensina.
Com tanta boa vontade, o vendedor já doou sangue para vizinhos, parentes e muitos desconhecidos, sempre sem cobrar nada. ''As pessoas que precisam me chamam porque sabem que eu gosto de ajudar. Já teve uma vez que a pessoa quis me dar dinheiro depois que fiz a doação, mas não aceitei. Quando vejo uma pessoa na rua, penso: será que essa pessoa tem um pouquinho do meu sangue nela? Isso deixa a gente mais próximo dos outros, mesmo que sejam estranhos.''
Como pagamento, Admízio, que também trabalha como voluntário para os programas Fome Zero e Bolsa Família, se satisfaz com o bem-estar pessoal. ''Só quem doa sangue consegue entender o bem que a gente sente fazendo isso. Não dá para explicar. É tão bom que fico chateado quando venho e não posso fazer a coleta. Se eu tiver ajudado a salvar a vida de uma pessoa nesses 39 anos de doação, já estou feliz.''


