''Ainda no quarto do hospital, contemplando aquele corpinho imóvel, já quase fino, com os olhos semicerrados, que há alguns dias estava cheio de planos, idéias e sonhos, passaram pela minha cabeça algumas indagações: por que conter a lágrima que teima em aflorar dos olhos ao ver aquele vazio da vida que se foi? Médico não chora? Por que disfarçar a ignorância e a falta de conhecimento sobre os mistérios que ainda cercam a vida humana? Por que não aceitar o que não podemos mudar? Por que não se sentir pequeno ante a imensidão da maravilha que Deus criou o corpo humano? Por que não se emocionar com as dores familiares que sempre envolvem a partida de um ente querido? Por que não ser sincero, olhar nos olhos das pessoas e dizer com calma e carinho ''eu não sei''?
O desabafo é um trecho de uma carta escrita pelo médico João Bento de Moura Neto, publicada na edição do dia 12 de dezembro da Folha de Londrina. O texto teve uma grande repercussão. Muita gente escreveu para falar sobre o assunto. Alguns tentaram responder as perguntas feitas pelo médico. Outros foram solidários com os sentimentos expressos por ele.
A disputa entre a emoção e a razão nunca deixou de existir. No entanto, em algumas profissões, a ''briga'' parece ser mais acirrada. Pessoas que lidam com o sofrimento humano e a violência muitas vezes precisam conter os próprios sentimentos na hora de agir. Para saber se esses sentimentos ajudam ou atrapalham, a Folha conversou com três profissionais: um médico, um juiz e um policial. As opiniões ficaram divididas, mas cada um explicou o que faz com a emoção na hora do trabalho.
Moura Neto, que é ginecologista em Londrina há 25 anos, escreveu a carta depois de perder uma paciente. ''Era uma pessoa jovem, cheia de sonhos, e morreu sem que a gente entendesse direito o motivo. Aquilo me levou a ver como a vida humana é tênue'', conta. Para ele, o médico não pode ser uma pessoa fria. ''A gente precisa se colocar no lugar do paciente e ao mesmo tempo não deixar que isso mude a nossa conduta profissional''.
O avanço da medicina, segundo Moura Neto, faz com que ela pareça ser cada vez mais exata. E também confere uma importância exagerada para os exames. ''É preciso resgatar o médico de família. O doente quer ser examinado, quer que o médico ponha a mão nele'', garante. Para se colocar no lugar do paciente, o médico precisa sentir; no entanto, a emoção não pode vencer a razão. ''Não vou deixar de fazer um exame só por pena do paciente'', ressalta.
''Médico que chora não é menos médico; aliás, o médico que vê uma pessoa morrer e não sente nada é uma máquina'', afirma Moura Neto. Sem vergonha de falar de sentimentos, ele também não se constrange em admitir que nem sempre tem a resposta para o paciente. ''O fundamental é ser sincero. Às vezes, eu confesso que não sei, mas não deixo o paciente nisso; vamos descobrir juntos. Não sou infalível nem perfeito''.
E para quem imagina que médico só chora de tristeza, Moura Neto mostra a foto do netinho e abre um enorme sorriso: ''Fiz a cesárea do meu neto. Foi a maior emoção da minha vida e eu chorei, sim''. Depois, mostra que emoção e razão podem conviver pacificamente, até na sala de cirurgia, desde que se use um pouco de sabedoria: ''Eu entrei acompanhado de uma colega, por precaução. Se a emoção fosse forte demais, ela estaria ali para me socorrer''.

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