Quem assovia, seus males alivia!
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 2008
Apolo Theodoro<br>Especial para a FOLHA 
Em crônica publicada nesta Folha no mês de março passado, a jornalista/ cronista Célia Musilli registrou sua surpresa ao encontrar ''sem mais, nem menos, um homem idoso que assobiava sem parar num supermercado''. Realmente, hoje é raro ver alguém assobiando pelas ruas ou em outros ambientes, hábito que já foi muito cultivado no passado por jovens e adultos.
A verdade é que outros sons entraram na parada e o assobio, sem dar um trinado, perdeu a sua boquinha e nem ficou de biquinho. Ouvir gente assobiando como dantes só se tiver a sorte de encontrar por aí alguém como esse insólito animador de supermercado cujo assobio encantou e despertou a sensibilidade da cronista.
Confesso que já tinha me esquecido desse menestrel pós-moderno que, em vez de cantar, assobia, quando alguém me assoprou no ouvido: ''Tem um cara aí que assobia demais e imita bem-te-vi muito bem, como sei que você gosta dessas matérias...'', já me passando um papel com o nome e o telefone do imitador
No primeiro alô, ele não estava em casa. Logo em seguida, o telefone toca: ''Boa-noite, aqui é o Antonio Roberto, você queria falar comigo? Olha, essa história de bem-te-vi não é bem assim, não, andam dizendo que eu imito bem-te-vi tão bem que ele vem aqui no quintal comer na minha mão, isso não existe, isso... se eu assobio? Claro que assobio, desde rapazinho, mas você acha que isso dá matéria pra jornal?''
No dia seguinte, sem saber ainda que era ele, conheci o homem que proporcionou à Célia Musilli ''um concerto improvisado para platéias sensíveis''. Junto da inseparável cachorrinha Julli, ele me aguardava em frente da casa, Rua Cândido Bettoni, Jardim Santo Antonio, zona Oeste de Londrina.
Ex-radialista e funcionário aposentado da Câmara Municipal de Londrina, Antonio Roberto, 74 anos, não sabia que seu assobio havia sido tema de uma crônica, mas reafirmou que assobia desde jovem e que começou a praticar pra valer ''depois que formei o meu conjunto de serenata - Os Vaga-lumes da Madrugada - aí não parei mais de assobiar.''
Seresteiro durante nove anos, ele se define como uma pessoa ''muito alegre e brincalhão'' e diz que com ele ''não tem esse negócio de pessoa desconhecida, amigo ou desconhecido, eu brinco com todo mundo, encontro na rua já começo a conversar, mas sempre de olho, se percebo que não estou agradando paro com a brincadeira.''
Enquanto falava, saudou um vizinho que passava na calçada com um caloroso ''bom-dia!'', acrescido de uma observação para o repórter: ''Tem que ser um bom-dia cheio, um bom-dia que sai de dentro, do seu interior.'', ensina o homem que é casado há 54 anos com Elza Bettoni Roberto, e revela outra faceta sua: ''Quando alguém me cumprimenta e pergunta se está 'tudo bem?', eu respondo: Está ótimo! Mas podia estar melhor; mas também podia estar pior; então está ótimo!''
Sua filosofia de vida? ''Nunca ofender ninguém, tratar todo ser humano com igualdade de condições, ser justo com todo mundo e, além disso, procuro fazer o que posso pelo meu semelhante.'' Como se vê, Antonio Roberto não leva a vida assobiando, mas, deu na veneta, esteja onde estiver... ''Eu assobio mesmo, pode ser no supermercado Viscardi, no Banco do Brasil, no Sindicato Rural, na farmácia, na oficina, me deu vontade eu assobio, os caras ficam olhando, mas eu não quero nem saber.''
Antonio Roberto diz que é abordado pelas pessoas que, surpresas com a ''novidade'' vivem pedindo para ele assobiar. Orgulhoso, ele revela algo que o emocionou num dia em que assobiava no supermercado Viscardi: ''Uma mulher me abordou e disse: 'Semana passada, o senhor me fez chorar aqui no mercado; o senhor estava assobiando uma música que o meu pai assobiava, me lembrei dele e comecei a chorar.''
Parodiando o velho ditado - quem canta seus males espanta - será que quem assobia seus males alivia? ''Quando eu assobio, eu fico meditando sobre a letra que sempre me traz alguma mensagem; é deixar a música entrar dentro de você... Não faço isso para agradar ninguém, é espontâneo, está dentro de mim.''
Sem herdeiros na arte de assobiar, Antonio Roberto promete continuar assobiando enquanto puder mesmo com a dentadura - ''Eu assobiava bem melhor, mas essa 'perereca' dificultou um pouco'' - queira estragar o seu diálogo musical com as pessoas e com os... bem-te-vis, uma história que, como ele disse no início, não é bem assim. Então como é, Antonio Roberto?
Ele aponta para a cruz da capela do Seminário Vicente Palotti, bem em frente da sua casa, enfia dois dedos na boca, dá um assobio imitando bem-te-vi e esclarece a questão: ''O bem-te-vi senta lá na cruz, aí eu assobio daqui, ele responde de lá; assobio daqui, ele responde de lá, quem vê pensa que seu sou louco, mas não estou nem aí, é uma loucura prazerosa. Será que estou errado?''
Quem quiser responder ao homem que troca assobios com bem-te-vi que responda; da minha parte, para encerrar, informo aos interessados que a língua portuguesa aceita tanto o assobio quanto o assovio. Agora é com você, meu amigo, tente, não é difícil: você sabia que o sabiá sabia assobiar?


