Quebra-molas: solução ou obstáculo?
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terça-feira, 15 de março de 2016
Rafael Souza<br>Reportagem Local
Morador da Rua Bolívia (zona sul de Londrina) há quase 40 anos, o autônomo Jonas Ferreira Pinto perdeu as contas dos sustos que tomou por conta dos acidentes próximo à sua casa, perto do número 600. "Foram muitos. Todo dia aquele barulho de freada, à noite então virava uma loucura e o pessoal corria mesmo. Já vi pelos menos uns três acidentes gravíssimos, inclusive com mortes por aqui", relatou.
Mas desde a semana passada, ao menos as noites dele ficaram mais tranquilas. A reclamação de tantos anos foi atendida pela Prefeitura de Londrina, que colocou mais um quebra-molas um pouco adiante do portão da sua casa. Foi a medida que a administração municipal encontrou para tentar acabar com as reclamações e o alto número de acidentes. "Aqui tem essa baixada na entrada do pontilhão e o pessoal voava ali mesmo. Era muito perigoso, mas agora melhorou bastante. Foi providencial", ressaltou Ferreira.
Mas também há quem desaprovou o local em que o quebra-molas foi colocado. A reportagem da FOLHA esteve no local e constatou que a maioria dos motoristas ficou na bronca, justamente por se tratar de uma rua com declive muito acentuado. Uma moradora da Rua Atlântico, paralela à Bolívia, ficou bem insatisfeita. "Pode ser benéfico para o trânsito, mas ficou ruim para dormir. É muita freada brusca em frente à minha casa", reclamou.
A Rua Bolívia é uma via importante de escoamento de fluxo da região central para a zona sul. Nos horários de pico, há até congestionamento. Mas é nos horários mais tranquilos que o perigo aumenta, já que muitos aproveitam o trânsito tranquilo para pisar um pouco mais no acelerador. Já haviam dois redutores de velocidade por lá, mas que em muito pouco atendiam sua utilidade. "Eles já eram baixos e depois que recapeou ficou ainda mais. Não adianta nada, porque os motoristas sequer reduzem a velocidade. Final de tarde é praticamente impossível de atravessar", contou Maria Eduarda dos Santos, que mantém um comércio na Rua Bolívia.
Além do instalado próximo à residencia de Jonas Ferreira, a Prefeitura também colocou outro redutor após o pontilhão, na tentativa de diminuir a velocidade no outro sentido da pista. "Foram providenciais. Já sentimos o efeito", garantiu um outro morador, que não quis se identificar.
RESTRIÇÃO
Responsável pelo planejamento viário da cidade, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) explica que a instalação de quebra-molas é, normalmente, a última opção utilizada para conter a alta velocidade de veículos. "O Ippul é muito restritivo a quebra-molas. O Código Brasileiro de Trânsito diz que só é permitido quando há uma justificativa muito forte e quando não há outra solução", apontou a presidente Ignes Dequech.
Segundo ela, um dos critérios levados em conta para definir a instalação de um redutor é o mapa de acidentes organizado pelo município. E esse é o principal motivo da escolha pela Rua Bolívia, por exemplo. "Ali é uma baixada, existe um viaduto, que pode levar a acidente gravíssimo e ainda tem uma intervenção viária, uma mudança de sentido da via, então ali está clara a necessidade", argumentou Ignes, acrescentando que foi a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanimos (CMTU) que esteve à frente do projeto de colocação do quebra-molas naquele local.
Uma alternativa que tem apresentado bons resultados, segundo Ignes, é a faixa elevada, geralmente instalada em locais com grande movimentação de pedestres.
SOLUÇÃO
Enquanto isso, na Rua Marcílio Lucas, no Jardim Vale Verde, também na zona sul, a solicitação por quebra-molas é unânime. A rua é uma das que cercam o Parque Arthur Thomas e fica em uma baixada. Motoristas que vêm de outras vias sequer param para entrar na Marcílio Lucas e deixam em alerta os moradores. "É pior ainda nos finais de semana à noite. Tem as chácaras aqui perto e o pessoal sai das festas e passa aqui em alta velocidade mesmo. Para ajudar não há nenhuma sinalização", criticou o motorista de ônibus João da Silva, que mora no local há 18 anos. "O ideal seria que colocassem ao menos um quebra-molas. Não tem problema que fosse colocado em frente à minha casa, não me preocupo", cobrou.
E o perigo é iminente mesmo. No pouco tempo em que a reportagem permaneceu no local, pôde comprovar o que os moradores reclamam. Ao menos três motociclistas abusaram da velocidade. "Ainda não aconteceu nenhum acidente mais grave, mas será que vão esperar alguém morrer aqui para fazer algo?", questionou a dona de casa Clizalda Maria Ribeiro.
A presidente do Ippul diz que é possível a colocação de quebra-molas e indica que os moradores façam uma justificativa e apresentem para análise do órgão. "Será feito um estudo de inclinação da via e a verificação da existência de outra intervenção capaz de acabar com o problema. Mas precisa ter uma movimentação grande para justificar", explicou.
Ignes acrescenta ainda que os quebra-molas não são indicados para rua com alto declive e avenidas de grande fluxo de veículos. Toda semana, o Ippul recebe, em média, cerca de dez pedidos de colocação de quebra-molas em Londrina.