A civilização pode ter deixado de utilizar o céu como referência para regular os vários aspectos da vida cotidiana. No entanto, nas comunidades indígenas, a posição das estrelas ainda indica o momento certo para plantar, caçar, pescar, se reproduzir e fazer rituais de magia. E o método funciona. Não é à toa que a astronomia é chamada a ''mãe de todas as ciências''.
O curioso é que, sem existir qualquer comunicação, muitos povos nativos enxergavam o céu da mesma forma. Isso foi constatado no trabalho de campo de Germano Bruno Afonso, físico de formação e estudioso de astronomia indígena há 20 anos.
Enquanto na Antiguidade os homens visualizaram um escorpião no céu austral de inverno, índios brasileiros encontraram um animal muito maior. A constelação da Ema domina quase dois terços do céu sobre a região Sul. ''O Curusu (correspondente índigena ao Cruzeiro do Sul) precisa segurar a cabeça da ave senão ela desce à Terra para beber toda a nossa água. Por isso, o povo relacionava que, quando a Ema aparecia, estava começando a estação da seca'', explica Afonso.
A Anta é a constelação da primavera, o Cervo do Pantanal, do outono, e o Homem Velho reina no céu do verão. ''Eles consideram que a Terra é o reflexo do céu. Então, praticamente todo animal que conhecemos tem um correspondente nas estrelas'', acrescenta.
O professor, com doutorado em astronomia na França, já apresentou seu trabalho no Brasil e no exterior. Sua pesquisa com etnoastronomia é pioneira no Paraná. ''Os índios conheciam as marés antes mesmo de Isaac Newton. A astronomia continua sendo uma ciência de ponta, com a qual podemos aprender muito só de olhar para o céu. Mas ainda há muito por descobrir. Sempre surgem mais perguntas do que respostas'', observa. (M.R.M.)

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