Que diacho de fruta é esta? (Parte 2)
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Apolo Theodoro<br> Especial para a Folha 
Com o título acima foi publicada na edição da Folha de anteontem a foto de uma frutinha que está em plena safra, próximo da barragem do Igapó. Como ninguém a conhecia, a matéria terminava desafiando os leitores a tentar identificá-la. Os leitores toparam o desafio e, depois de algumas controvérsias, o mistério foi solucionado.
De Colorado, aqui no Paraná, o comerciante José Carlos Tafarello ligou e garantiu que ''é calabura, tenho certeza, eu comprei quatro mudas para plantar no meu sítio''. José Carlos informou ainda que a fruta ''é uma delícia, superdoce, chega a ser ardida de tão doce'' e revelou que, com dois anos, a árvore já está produzindo. E deu o alô final: ''Ontem, inclusive, eu comi calabura do sítio desse meu amigo que me vendeu as mudas, é uma delícia!''.
Do jardim Santa Mônica, em Londrina, uma pessoa que não quis se identificar não só afirmou que era calabura, como garantiu que ''tem uma árvore carregadinha delas na Rua Maria Kozan Pialarissi, perto da minha casa, vem aqui conferir pra você ver, é uma frutinha muito gostosa, não dá pra parar de chupar''.
A informação era verdadeira, a calabura é uma delícia mesmo, difícil parar de chupar. Só que tem um detalhe fundamental: as frutinhas e a árvore do Santa Mônica, não têm nada a ver com as frutinhas e a árvore da beira do Cambezinho. De semelhança, apenas o fato de ser frutinhas. No mais, a calabura é mais redonda que a outra; quando madura fica vermelha, ao contrário da outra, que parece uma azeitona preta; também as folhas são bem diferentes.
Tentamos o Iapar, mas o especialista da área está de férias. Mas, pra salvação da lavoura, não foi preciso esperar a volta dele porque outra estudiosa da área, alertada pela mãe - ''Você viu esse negócio dessa fruta aqui no jornal?'' - também leu a matéria da FOLHA e se interessou pelo assunto. Pegou o carro e bateu lá na beira do Cambezinho, perto da Cativa.
Tendo em mãos o livro ''Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas'', de Harri Lorenzi e outros, a engenheira agrônoma Christina da Silva Wanderley, um olho na árvore, outro no livro, confrontou o formato das folhas e dos frutos e concluiu: é um tarumã-da-várzea, também conhecido, entre outras denominações, como tarumã-do-alagado, parente próximo do tarumã preto, e cujo nome científico é Vitex Cymosa.
O livro diz também que, embora natural da região amazônica e Brasil Central até São Paulo e Mato Grosso do Sul, a árvore é mais frequente hoje no pantanal mato-grossense. Ela se propaga por sementes e pode atingir de 12 a 20 metros. E o mais importante: diz o livro que o tarumã é um fruto com polpa suculenta e de sabor adocicado.
Segundo a agrônoma, ''os frutos são consumidos in natura, mas não são muito apreciados, mas quem quiser pode comer, vai pelo gosto do freguês'', realça Christina, que gostou de se envolver na querela: ''Matérias como esta chamam a atenção, despertam a curiosidade das pessoas, sendo ou não da área; eu me interessei porque falaram que era jambolão, seriguela e não era nem um nem outro.
Antes de terminar este adocicado papo, é preciso fazer justiça a um morador de Arapongas, de nome José Adolfo, que também ligou para dizer que era tarumã. Como não foi possível um novo contato para ele se explicar a respeito, fazemos este registro para destacar seu conhecimento.
E se você ainda não foi chupar um tarumã na beira do pontilhão às margens do Cambezinho, ali perto da Cativa, não perca tempo. Ontem mesmo chegaram duas pessoas atraídas pela reportagem de anteontem. ''Esta é a fruta que saiu na FOLHA?, indagou o aposentado Antonio Bera, enquanto o também aposentado João Soares, após ouvir Christina, comentou: ''Ontem eu passei aqui, olhei, senti vontade, mas fiquei com medo de comer. Agora que sei que pode comer, vou experimentar uma'', e foi em direção da árvore matar sua vontade.


