Quatro gerações em transformação
Em seus 81 anos de vida, a aposentada Ernestina Eugênio Santim viu muita coisa mudar no mundo. Na infância, não se preocupou com o consumismo. Na adolescência, conversar sobre sexo com os pais era impossível. Casamento era decisão tomada no frescor da juventude. Após o matrimônio, a regra era começar a escadinha de filhos. Com ela, nada disso foi diferente, mas a mulher forte, ''criada na roça'', que deu à luz 15 filhos e aprendeu a conviver com o progresso. E tem se saído bem.
Da prole numerosa, 11 estão vivos. Estes lhe deram 25 netos, 15 bisnetos e, por enquanto, três tataranetos. Poderíamos dizer que a família está encolhendo mas, na realidade, as quatro gerações de descendentes foram se adaptando às transformações do mundo. A filha mais velha da matriarca, por exemplo, hoje com 60 anos, teve cinco filhos, enquanto o caçula, que tem 40, teve apenas dois.
Dona Ernestina veio do interior de São Paulo para o Paraná há uns 50 anos, já casada com o agricultor Antônio Santin (já falecido). Pouco mais de um ano após o casamento, o casal teve o primeiro filho. Daí em diante, a ''escadinha'' aumentou rapidamente. ''Não é que eu quisesse ficar grávida, mas naquela época não tinha recurso. Hoje tem os remédios que a mulher pode tomar para não ter filho'', compara.
Os filhos foram crescendo e o sonho de melhorar de vida migrou junto com a família para a cidade. Os mais velhos ainda tentaram viver da lida com a terra, mas acabaram vencidos pela geada que arrasou os cafezais paranaenses em 1975. Dona Ernestina não gostou muito e foi vencida pela facilidade que os filhos tiveram em conseguir emprego e ganhar independência.
A segurança apressou os casamentos e a chegada dos primeiros netos de dona Ernestina. Uma das filhas, Maria Dolores Berlini, 48, hoje brinca que ''queria ter tido uns 10 filhos'' mas parou no terceiro depois de pensar melhor. ''Acho que a questão financeira é o maior medo da gente'', comenta.
A filha Patrícia Berlini, 22, seguiu o mesmo caminho e, mesmo se casando com 17 anos, planejou que não queria filhos. Com o fim do casamento, acha que foi a melhor decisão. ''Queria ter minha casa primeiro. Ainda quero ser mãe, mas vou esperar mais um pouco'', fala. A cunhada de Patrícia, Priscila Berlini, 21, admite que Maria Eduarda, 3, ''veio meio no susto''. Ela até pensa em partir para um segundo filho, mas a decisão não está tomada. ''Penso mais no futuro. Quero que a Maria Eduarda estude, entre numa faculdade e só depois se case e tenha filhos'', argumenta.
Outra filha de Ernestina, Sidinéia Santim Gusmão, 42 anos, teve apenas dois filhos - Luiz Fernando, 19, e Luana, 10 - e diz que tem conversas frequentes com eles sobre todos os assuntos, incluindo sexo e drogas. ''Acho que a mãe e o pai têm que ser amigos dos filhos'', comenta. Ela acha que só com informação e diálogo pode evitar que os filhos cometam o erro de não se protegerem. (L.A.)





