Quarentena: é hora de cuidar da saúde mental
Viver o luto e passar por momentos de tristeza são sentimentos esperados diante do isolamento social, assim como buscar novos significados
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Viver o luto e passar por momentos de tristeza são sentimentos esperados diante do isolamento social, assim como buscar novos significados
Micaela Orikasa - Grupo Folha 
Os dias já parecem longos demais. A casa já ficou em ordem e desordem por repetidas vezes. A televisão já não é entretenimento garantido e, de uma hora para outra, vem um abatimento, uma tristeza. Quem não está sofrendo com todas as mudanças impostas pela pandemia do coronavírus está mentindo. Afinal de contas, cada pessoa teve que abrir mão de algo rotineiro, seja o ambiente de trabalho, o happy hour, a ida à manicure, os jantares em família, os passeios com amigos.

E essa perda de vínculos, da rotina e da expectativa para um futuro próximo precisa passar pelo processo de luto para que a adaptação de uma nova realidade seja possível. Essa pode ser uma reflexão inicial para quem está em sofrimento emocional nos últimos dias.
“Além da morte, nós temos outras perdas que precisam ser reconhecidas para que possamos entrar em processo de luto. E isso é importante para que a gente aprenda a lidar com o novo. O luto nos permite compreender a realidade que nos cerca em determinado momento e abre possibilidades para a gente sentir o que precisamos sentir”, diz o psicólogo Lucas Barbosa dos Santos.
O psicanalista Sylvio do Amaral Schreiner vai além e diz que o momento também pode nos levar a uma perda de identidade. “Algumas pessoas entram em depressão, se fechando para o mundo. Outras estão em estado de pânico e tem aqueles quem se encontram em estado de negação pelo excesso de medo, enquanto que algumas pessoas ficam relativamente bem”, observa.
E o que faz com que cada pessoa siga um caminho – mais ou menos saudável - é o grau de desenvolvimento mental dela. Schreiner comenta que, às vezes, vai ser preciso buscar ajuda profissional para trabalhar isso, no entanto, aqueles que já têm um certo desenvolvimento poderão se fortalecer através de uma rede de apoio. “É importante se comunicar. Digo que quem fala se apropria dos seus males consegue lidar melhor com o que está sentindo”, ressalta.
HORA DE SE REINVENTAR
Para Santos, o momento é oportuno para as pessoas compartilharem suas angústias e mais do que se adaptar ou se superar, é se reinventar. Ele tem feito transmissões ao vivo nas redes sociais, conversando com o público sobre como lidar com os sentimentos nesse período de isolamento social.
“Nós, seres humanos, somos seres sociáveis e buscamos sempre ter controle das coisas, mas nesse momento de isolamento estamos tendo que lidar com as incertezas ao mesmo tempo que temos ausência de afeto e socialização. Então, é a hora de falarmos sobre autoconhecimento, autocuidado, rede de apoio e lembrarmos que tudo na vida passa”, pontua.
A psicóloga Mariah Frighetto tem tido contato também com profissionais da saúde e acrescenta que o momento é de cada um encontrar os recursos emocionais, psicológicos, materiais, financeiros e sociais; e encontrar dentro deles novas formas de lidar com a realidade. “Vamos ter que elencá-los e botá-los para uso. Nem sempre vai ser confortável”, aponta.
“Estão aparecendo sentimentos novos para todo mundo e agora todos têm mais tempo e espaço para observar outras questões que não estavam em pauta, dando novos significados”, completa Santos.

ESPAÇO PARA A TRISTEZA
Diante de toda essa análise sobre saúde mental é oportuno e essencial falar sobre os sentimentos considerados negativos. O psicanalista Sylvio Schreiner comenta que em momentos de apreensão como o atual, dar vazão aos sentimentos de tristeza e melancolia não significa ser infeliz.
“Ser feliz o tempo todo é impossível, o ser humano não funciona desta maneira. Existem momentos em que vamos estar tristes, zangados, melancólicos. Isso tudo faz parte da vida. Essa gangorra de emoções é natural e felicidade não significa estar alegre a todo momento”, diz.
Nesse contexto, ele defende que as pessoas busquem a “felicidade possível’, que é quando o saldo geral é positivo: estou satisfeito, acho que estou indo num caminho bom para a minha vida. Felicidade não é uma alegria sem fim, isso não existe", alerta.
Schreiner lembra ainda que não sabemos como preservar a mente dos sentimentos provocados pelos últimos acontecimentos. “Não tem água nem sabão para isso. A gente precisar desenvolver através do autoconhecimento. Até porque as angústias que estamos vivendo não são só pelo isolamento, a doença ou as mudanças sociais, mas são aquelas que cada um já carregava, mas que no dia a dia ficavam abafadas”, diz.


