Quarenta mil mulheres são vítimas de violência
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terça-feira, 30 de setembro de 2003
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Ameaças. Foram muitas, durante os três anos em que a faxineira Tânia, 42 anos, foi casada com Jonas. ''Bater mesmo, ele nunca bateu. Mas sempre ameaçava. Nos últimos tempos, passou a dizer que ia me matar. É horrível, você tem medo até de fechar o olho para dormir'', recorda. Apesar das ameaças do companheiro, Tânia garante que gostou dele até sua morte, por overdose de cocaína, há cerca de dois meses. E acredita que foram as drogas que fizeram de ''um homem muito bom'' uma ''pessoa agressiva''.
Violência física. A primeira vez ocorreu logo nos primeiros anos de casamento da professora Margarida, 58 anos. Ao defender o filho pequeno de uma surra, ela levou de César um murro nos olhos. A dor e a humilhação fizeram a professora cogitar uma denúncia à polícia, mas o medo de sofrer novas agressões ou de não ter como sobreviver sozinha falaram mais alto. ''Ele nunca mudou. Certa vez, eu estava ouvindo a Copa de 70, e ele ficou com tanta raiva que arrancou as pilhas do rádio e atirou na chuva. Em outra ocasião, desligou o relógio da luz, saiu levando a chave e deixou a família toda no escuro'', conta. Margarida foi casada por mais de 25 anos, até ficar viúva.
Assassinato. Foi o desfecho de uma união repleta de brigas, agressões e perseguição para Valéria Cristina da Silva, 23 anos, morta a tiros no último sábado, no Jardim Parigot de Souza 2 (zona norte). O principal suspeito, apontado por familiares de Valéria que testemunharam o crime, é o ex-marido da vítima, José Roberto Fermino da Silva. Eles foram casados por seis anos, até a separação, há cerca de 4 meses. ''A exemplo de outras mulheres, Valéria havia conseguido sair de uma relação violenta. Mas o marido não se conformou com a perda'', avalia a diretora do Centro de Atendimento à Mulher (CAM) de Londrina, Sandra Coelho.
Ameaça, agressão física e homicídio. Três formas de violência contra a mulher, três histórias reais (em algumas, os nomes foram trocados para preservar a identidade das vítimas) de crimes cometidos dentro do próprio lar. São exemplos que personificam as estatísticas assustadoras que se tem sobre o tema. Um levantamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aponta que entre 25% e 50% das mulheres latino-americanas sofrem violência doméstica. No Brasil, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher estima em 40 mil o número de vítimas, a cada ano. Em Londrina, a Delegacia da Mulher atendeu, em 2002, 2.117 mulheres em situação de violência. Este ano, já foram 1,5 mil casos atendidos. Só nas duas últimas semanas, três crimes passionais um assassinato e duas tentativas de homicídio foram registrados na cidade.
A realidade é ainda mais cruel do que mostram as estatísticas. Segundo a diretora do CAM, apenas um terço dos casos de violência são denunciados. O número de casos que são levados à Justiça é ainda menor: em apenas 10% deles, as mulheres decidem representar contra os maridos. Os motivos vão além do medo de represálias. ''A mulher se sente obrigada a esgotar todos os esforços possíveis para manter a família unida. Tanto que 70% das mulheres não querem a separação nesses casos. Há também a preocupação financeira e o receio de perder a guarda dos filhos'', explica Sandra. São os mesmos fatores que podem retardar uma denúncia por décadas. De acordo com estimativas, as mulheres demoram em média nove anos, a partir das primeiras agressões, para registrar queixa. ''Aqui no CAM já tivemos um caso em que a mulher demorou 40 anos para denunciar o marido'', exemplifica.
Promessas de mudança no comportamento também contribuem para a continuidade de relacionamentos marcados pela violência. Mas pelo que presenciou em 17 anos de trabalho, a delegada da Mulher de Londrina, Maria Joseléia Pigozzi, é categórica ao desacreditar esse tipo de promessa. ''Nunca vi nenhum homem mudar. E também não se tornam agressivos só depois que se casam, como pensam muitas mulheres. É que qualquer ser humano, quando se envolve emocionalmente, deixa de notar a agressividade'', argumenta. Sandra Coelho discorda e, mais uma vez, usa as estatísticas para apontar que a mudança é possível. ''A reincidência média nos casos de violência é de 20%. Mesmo aqui no CAM, onde hoje o nosso trabalho direto com os maridos ainda é superficial, muitas agressões deixam de acontecer'', garante.


