Nas carreiras nas quais o poder público é o maior empregador, quanto maior o número de profissionais, menor o salário. O dado consta numa Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad) realizada em 2001 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números retratam uma realidade difícil de encarar pelos profissionais brasileiros.
  Segundo informações da pesquisa, há cinco anos, havia mais de 270 mil advogados, mais de 250 mil médicos, mais de 130 mil professores universitários e apenas 14 mil delegados e 10 mil juízes no Brasil. Em contrapartida, existiam cerca de 2 milhões de professores da educação básica no País.
  A pesquisa apontava ainda que médicos e advogados brasileiros ganhavam, em média, quatro vezes mais que um professor do ensino fundamental. Mas o destaque ficava para a profissão de juiz. Na época, o rendimento médio deste profissional era quase 20 vezes superior ao rendimento médio mensal de professores da educação infantil, por exemplo. Qualquer coincidência com a situação atual não é mera semelhança.
  Os dados do IBGE alertavam que quanto maior a média salarial de uma profissão de nível superior, maior a demanda dos cursos na respectiva área, sobretudo na rede pública. Esta relação foi comprovada no vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) deste ano. O curso de Direito foi o segundo mais procurado, com cerca de 2,8 mil concorrentes, perdendo apenas para o de Medicina que sempre foi o mais concorrido.
  No entanto, nem todos os estudantes estão aptos a disputar uma vaga entre as profissões que pagam mais. Pelo menos é o que defende o professor de matemática Nelson Antonio da Silva. Segundo ele, hoje, os cursos de licenciatura como matemática, química, física, história e biologia são opções para alunos que verdadeiramente gostariam de ingressar em faculdades de medicina, odontologia e direito, por exemplo.
  ‘‘Isso porque quem escolhe licenciatura não tem condições financeiras de arcar com outros cursos’’, diz Silva. Para ele, falta também orientação aos alunos da rede pública sobre como escolher a profissão. ‘‘Alunos da rede privada têm estrutura familiar, são melhores preparados e quase sempre já sabem o que querem estudar antes mesmo do vestibular. Além de ter poder aquisitivo para pagar a faculdade escolhida.’’
  Aos 40 anos, o professor garante que ‘‘tem sorte por conseguir sobreviver trabalhando em apenas uma escola’’, diferente da maioria dos colegas de profissão. ‘‘Tem professor que precisa trabalhar 60 horas semanais para receber o mesmo que um técnico.’’
  Formado em 1991, Silva também já teve de se sujeitar a trabalhar em quatro escolas para pagar as contas no começo da carreira. Com duas pós-graduações e um crédito de mestrado no currículo, ele mal consegue inteirar R$ 2 mil mensais de pagamento. ‘‘Lutamos pelo menos pela equiparação do salário dos professores com o dos técnicos administrativos, que recebem 57% a mais que os docentes no Paranᒒ, avisa. Hoje, o salário base de um professor do Estado é de R$ 515 para uma carga horária de 20 horas de trabalho.
  De acordo com Nelson Silva, com o repasse de R$ 5 milhões do governo federal para a educação – 60% para cobrir folha de pagamento –, o Paraná terá R$ 500 mil para investimentos no ensino fundamental e médio. ‘‘Esperamos um aumento de 30% nos salários dos professores.’’
  Para melhorar o orçamento, ressalta Silva, os professores fazem investimentos pessoais, ‘‘já que não há no País uma política de educação continuada’’. E o incremento no salário não passa de 15% para cada título obtido. ‘‘São necessários até cinco anos de trabalho para recuperar o investimento em cursos de pós-graduação, mestrado ou doutorado’’, afirma.
  Segundo Silva, 80% dos professores paranaenses já possuem certificados de pós-graduação, mas não recebem nenhum adicional no salário por isso. ‘‘Sempre tem anúncio de vagas para professores nível três, que ganham R$ 1,7 mil por 20 horas trabalhadas, mas no Paraná ainda não há professor qualificado para ocupar este cargo’’, lamenta.

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