Quanto vale um sonho? Quanto tempo você pode esperar até alcançar o que deseja? Para algumas pessoas, os objetivos têm que ser atingidos rapidamente e aguardar quatro, seis e até dez anos parece uma eternidade.
Para uma turma, entretanto, esperar acaba se tornando normal. São os que desejam uma vaga na universidade, particularmente no curso de Medicina. Ontem vários colegas de cursinho, aprovados ou não no vestibular, se encontraram em Londrina para trocar experiências e matar as saudades, já que a tão sonhada chance surge nas escolas mais diversas.
Vitor Guilherme Aranda, 24 anos, demorou longos seis anos até ser aprovado e agora cursa o primeiro ano na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). ''Eu sempre ouvia que já teria me formado, pelo tempo que já estava fazendo cursinho, mas nunca pensei em desistir. Não me via fazendo outra coisa que não medicina'', justifica.
Segundo ele, seu primeiro vestibular foi para Engenharia Elétrica, mas Guilherme logo percebeu que não era seu objetivo. Quatro anos depois, ele conta que foi aprovado em uma universidade federal, mas por ser muito longe, acabou desistindo.
''Minha pontuação era boa, vi que tinha chances de ser aprovado no ano seguinte, mas infelizmente precisei fazer ainda dois anos de cursinho'', explica, contando que pensa em seguir a área da Pediatria. ''Ainda tenho muito o que aprender e os professores já nos avisaram de que até o final poderemos mudar de ideia muitas vezes.''
O estudante de Medicina Fábio de Holanda Cavalcanti, 27 anos, também precisou de seis anos para ser aprovado na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, e hoje cursa o quarto ano. Mas Fábio nem sempre apostou na medicina. Ele é filho de um ginecologista e obstetra e conta que várias vezes os compromissos familiares foram desmarcados por causa da profissão do pai.
''Mas quando fiz 16 anos, mudei de ideia e resolvi tentar meu primeiro vestibular. Não fui aprovado e então comecei a estudar em um cursinho, mas a turma era mais velha, eu era tímido e acabou não dando certo. Depois mudei de escola, mesmo assim não conseguia passar, tinha a autoestima um pouco baixa, achava que nunca ia dar certo. O ano em que reprovei na primeira fase da UEL foi o pior. Mas meus amigos me deram muita força, mostraram que eu tinha chances e acabou dando certo'', diz.
Fábio também acredita que embora tenha demorado, valeu a pena perseverar. ''Eu até pensei em fazer um outro curso, mas nunca cheguei a me inscrever mesmo. Meus pais também foram muito tranquilos, me deixaram livre para escolher outro curso ou para continuar tentando.''
Para ser aprovado, ele conta que não há uma receita, mas destaca que nunca foi de ficar estudando horas a fio, tentando decorar o conteúdo. ''Gostava muito de fazer exercícios, às vezes estudava mais tempo, outras menos. Quando a gente fica muito tempo no mesmo cursinho precisa tomar cuidado para não tornar as coisas automáticas. Na nossa turma era legal porque arrumávamos tempo para brincar e descontrair e também para estudar.''
Segundo Fábio, prestar tantos vestibulares acaba ensinando o candidato a ser mais tranquilo, pois com o tempo já se sabe como é a prova e isso acaba fazendo a diferença. ''Realmente é difícil um ano a mais (de cursinho). A gente não sabe o que vai acontecer, mas quando você passa e vê que aquilo fará parte do resto da sua vida, é muito bom. É um ano para uma vida'', filosofa.

Quarta tentativa

Denise Camilios Cossiolo, 21 anos, está cursando seu quarto ano de preparação para o vestibular, também de medicina. ''Desde o começo foi minha opção. Até pensei em outras coisas, mas não tem jeito'', justifica. Depois de várias tentativas e da aprovação do namorado para uma vaga na mesma área, ela conta que se sente mais ansiosa quando chega a data das provas, mas, por outro lado, também surge a paciência para esperar e não desistir.
''Muitos me dizem que não aguentariam quatro anos de cursinho, mas quando é para conseguir o que se quer, você consegue'', garante. Para Denise, ver os colegas mais velhos sendo aprovados é normal, mas quando um mais novo consegue uma vaga, já não é tão simples assim. Neste final de ano ela está se preparando para prestar, pelo menos, cinco provas. ''Com o Enem ficou mais fácil, mas antes o gasto com inscrições e viagens era bem maior.''

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