Quando os dedos falam
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Fernanda Carreira <br> Reportagem Local 
Ter um familiar ou amigo internado em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) é sempre uma situação delicada, além de exigir cuidados específicos da família e do hospital. Foi pensando em humanizar o atendimento, permitindo que pacientes sem condições de falar, porém conscientes, pudessem expressar seus sentimentos e necessidades, que hospitais vêm desenvolvendo técnicas para a comunicação.
No Hospital Evangélico, a introdução de um tabuleiro batizado de Conversatório (Conversa de Consultório Ambulante), em outubro de 2010, tem auxiliado na formulação de frases por pacientes que estão respirando com a ajuda de aparelhos ou sofreram acidente vascular cerebral.
Divertido e semelhante a um jogo, o tabuleiro traz o abecedário, números e um conjunto de palavras, que a psicóloga Jacqueline Queirolo reuniu ao longo de dez anos de trabalho com os pacientes da unidade. As 36 palavras registradas em seus 1.100 atendimentos agrupam sentimentos, vontades e necessidades dos pacientes. ''São palavras como dor, saudade, calor e fome que nos ajudam a entender o que o paciente quer expressar'', explica.
Segundo a psicóloga, o tabuleiro é uma forma de potencializar a ferramenta de trabalho já utilizada desde 2001, mas que ainda era limitada. ''Com papel e caneta, nós os estimulávamos a escrever suas angústias, medos e vontades. Como alguns ficavam limitados nesta ação, sem voz e ainda sem os movimentos dos braços e das mãos, passamos a utilizar o tabuleiros'', observa.
Para Jacqueline, a técnica é de extrema importância, pois a internação é um período de intensa reflexão, já que a vida normal para e sobra tempo para eles pensarem na família, nas escolhas e nos valores de sua vida. ''Os resgates são inevitáveis e com eles vêm as angústias de rever pessoas, restaurar relacionamentos, revelar sentimentos'', destaca. ''É nesse momento que o trabalho surge como forma de minimizar o sofrimento e a angústia do paciente.''
Lúdico
Jacqueline conta que a experiência mais marcante foi atender um paciente que fixava a palavra ''saudade''. Durante o bate-papo, ele conseguiu apontar o nome da filha, distante há alguns anos por causa de uma briga. O hospital contactou a família e a filha veio de outro Estado rever o pai.
''O reencontro foi muito especial, tanto no aspecto emocional quanto físico'', conta a psicóloga. ''Foi uma cura em sua alma, ainda que a doença tenha evoluído para a morte anos mais tarde.''
Para as crianças ou adultos não alfabetizados, a psicóloga utiliza o Conversatório Lúdico. Repleto de imagens, o tabuleiro permite que a criança aponte emoções, vontades e necessidades por meio de figuras. De acordo com Jacqueline, a ''conversa'' dura, em média, de 20 a 30 minutos, e são atendidos aproximadamente dez pacientes da UTI por mês.


