A chegada dos 18 anos pode criar situações antagônicas para os jovens. Para uns é motivo de comemoração, porque terão, enfim, direitos pertinentes aos adultos. Para outros é problema, porque perderão um importante benefício: o de poder ser contratados como menores aprendizes dentro de empresas públicas e privadas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) só prevê a liberação de recursos para projetos de capacitação e inserção no mercado de trabalho até que completem a maioridade.
Atualmente quase dois mil adolescentes participam em Londrina de cursos profissionalizantes oferecidos por entidades beneficentes. Parte deles já trabalha enquanto estuda, e tem a seu favor a possibilidade de contratação no futuro. A inserção no mercado de trabalho, porém, não é certa; em muitos casos, tornar-se adulto significa dar início a uma via sacra à procura de emprego.
Foi o que aconteceu com Lucimara Aparecida do Prado, hoje com 20 anos. Há quatro anos ela foi contratada como auxiliar de biblioteca na unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em Londrina (Embrapa Soja). Depois de dois anos trabalhando como menor aprendiz e mais um ano como estagiária da escola em que concluía o ensino médio, em dezembro de 2003 teve que se desligar da empresa. Por se tratar de um orgão público, a contratação só é possível através de concurso.
Hoje Lucimara engrossa o contingente de desempregados em Londrina. Por falta de opção, voltou a trabalhar com a mãe na coleta de lixo reciclável. As duas conseguem juntar cerca de R$ 50,00 por semana. Na Embrapa, ela ganhava pouco mais de um salário mínimo por mês. ''Logo que saí de lá, consegui um emprego na padaria de um hipermercado, mas tinha que ficar depois do fechamento da loja e chegava em casa só depois da meia-noite. Como moro na periferia, era muito perigoso.''
Quem também terá que deixar de fazer o que gosta por estar completando 18 anos é Roberto Peres dos Santos. Há dois anos, ele trabalha como auxiliar de cinegrafista na Embrapa. A oportunidade foi a realização de um sonho. ''Sempre gostei de som, de imagens. O dia em que vi uma ilha de edição, soube que era o que queria.'' Santos entrou na empresa como office boy e por um tempo se dividiu entre as duas funções. ''Meu sonho é ser cinegrafista. Tudo o que quero é arrumar um emprego nesta área, mas é difícil'', admite.
Sexta-feira foi o último dia de trabalho de Santos. Ele ainda não sabe direito como vai se manter daqui para a frente, mas demonstra confiança: ''Ficar sem trabalhar ninguém fica, é só fazer o que aparecer. Mas tenho uma vida só, se não fizer o que gosto nesta vida, não vou ter outra chance''. O salário de R$ 320,00 (incluindo tíquete-refeição) que Santos ganhava eram usados para pagar as próprias despesas, já que mora sozinho porque a família mudou-se de Londrina.
As entidades reconhecem que o mercado não é capaz de absorver totalmente a mão-de-obra resultante destes projetos. ''Não fazemos o acompanhamento dos meninos depois que passam dos 17 anos e 11 meses, mas sabemos de muitos casos de garotos que permaneceram, como contratados, na empresa em que atuaram como menores aprendizes'', informa a assistente social da Guarda Mirim, Luciana Eny Teixeira Rocha.
O presidente da Liga dos Engraxates, Nery Cândido da Silva, admite que, em alguns casos, a instituição mantém por um tempo rapazes que atingem a maioridade. ''Temos hoje 38 jovens. Destes, dois já completaram 18 anos.'' Por outro lado, garante Silva, o investimento na formação moral dos garotos proporciona um ''bom aceite'' dos mesmos no mercado de trabalho.

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