Quando o sinal vira picadeiro
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sexta-feira, 12 de julho de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Houve um tempo em que as atrações do circo eram divulgadas com certa frequência pelos alto-falantes, que percorriam toda a cidade. Era a chegada de uma das grandes diversões de adultos e crianças, que mesmo habituadas às trapalhadas dos palhaços e às habilidades dos trapezistas e malabaristas, não deixavam de se emocionar a cada sessão.
Hoje, apesar de vez ou outra um circo aportar em Londrina, está cada vez mais difícil levar os filhos a um espetáculo. É nesta hora que entram em ação os artistas de rua, conhecidos como "artistas de sinal". Profissionais, só que sem carteira assinada, eles fazem dos semáforos um picadeiro improvisado, com curto tempo de duração.
Além da prática ser o ganha pão de muitos desses artistas, eles também desempenham um papel fundamental para as tradições circenses. "Acredito que o trabalho deles é um estímulo para que a sociedade veja algum número circense. O circo é uma atividade de lazer, mas também é uma profissão. Além disso, a presença deles na cidade proporciona uma troca de experiências muito rica com demais artistas locais", comenta o diretor da Escola de Circo de Londrina, Sérgio Oliveira.
A arte dos "profissionais de sinal" também revela a visibilidade que a Escola de Circo tem mundo afora. Os entrevistados para essa matéria estão há pouco tempo na cidade e foram atraídos pelo curso profissionalizante ofertado gratuitamente na instituição.
E são sob olhares interessados ou até de desdém que eles demonstram o que vêm aprendendo na prática. A menina do sorriso fácil é do Chile e veio a Londrina acompanhada pelo namorado. A cada sinal fechado, eles se intercalam revelando habilidades. Loreto Mejías, de 18 anos, aprendeu as técnicas com o companheiro Alonso Mejias, 20.
O casal diz que conta com o apoio das famílias, porém, não financeiro. Eles percorrem algumas cidades e até países, ganhando o sustento com malabares e ilusionismo. "Conhecemos um artista no Chile, que já tinha passado pela Escola de Circo de Londrina. Ele nos disse que aqui poderíamos aprender muito mais e, o que é melhor, sem custo. Levantamos um dinheiro e chegamos aqui há cinco meses", conta Loreto, que atua diariamente nos semáforos da Avenida JK.
"Tem dias que chegamos a ficar até sete horas no mesmo ponto para juntar mais dinheiro. Às vezes, conseguimos uns R$ 40, mas isso depende muito de quem para. Há aqueles que não podem dar dinheiro, mas dão um chocolate, uma fruta ou até mesmo um aplauso. Mas também há quem não dá nada mesmo, e eu acho que é por não reconhecer nosso trabalho. Muitas pessoas ainda relacionam nossa presença com pedintes ou drogados", declara a garota, que impressiona com o número de ilusionismo.
Já Alonso demonstra grande habilidade com os malabares de fogo. Ele aprendeu a arte aos 16 anos, por pura afinidade com o universo do circo e hoje percorre vários destinos fazendo o que gosta. "Estamos juntando dinheiro para seguir para o Nordeste. Não temos o estilo de vida da maioria das pessoas, mas fazemos o que gostamos e temos essa liberdade de conhecer um pouco de cada lugar", diz o jovem, que garante treinar todos os dias. "Na verdade, o sinal é o nosso treino. Dá para improvisar, testar números", completa.
A contabilidade no final do dia garante ao casal a alimentação e o aluguel de uma casa. Para conseguir a quantia necessária para seguir viagem, eles calculam mais dois meses de trabalho e economia.
Loreto e Alonso não vieram sozinhos. Eles estão acompanhados do amigo Maurício Watson, de 19 anos, também chileno e malabarista, porém, ele usa um monociclo para se apresentar. Assim como o casal, Maurício veio para Londrina aprimorar a técnica. Ele faz aulas na Escola de Circo, mas ao contrário dos amigos, ainda não tem o próximo destino definido.
Maurício começou a atuar em semáforos há dois anos e já percorreu alguns estados brasileiros como Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso. "Vivo com o que ganho no semáforo, mas quando preciso minha família me ajuda. Eles apoiam essa minha escolha", afirma ele, ao ressaltar que "apesar dos sorrisos e aplausos não garantirem um prato de comida, é gratificante".


