Maurício Della Barba
Vi quando o sinal fechou. Logo em seguida veio o zumbido dos pneus no asfalto. Fechei os olhos e esperei o barulho. O som de lata amassando entrou pelas minhas veias de forma avassaladora, me arrepiando por inteiro.
Por um instante tudo ali ficou em silêncio. Abri os olhos e vi a cena. Vidros quebrados se misturavam ao sangue, que escorria vivo pelo asfalto. Tremi novamente, querendo não ver o resto.
Pouco a pouco, as pessoas iam se aproximando. De um lado, a moto, embebecida com gasolina, reluzia a tristeza do momento. Um monte de metal, um monte de ferro.
Meus olhos, aflitos em uma busca contrária, não demoraram muito a encontrar o resto. Estava ali, desconcertado e estirado. Metade na calçada, metade na rua.
Meu coração bateu mais rápido. Sentia algo estranho. Um medo infinito, misturado a uma sensação de impotência.
Estávamos todos ali, imóveis e sem nada a fazer. Olhar, sentir e pensar. Talvez um capacete, talvez uma atenção maior, ou quem sabe um pouco mais de sorte. Não. Isso não adiantava mais. Nem um capacete, nem uma velocidade menor, nem mesmo um milagre.
O asfalto, ainda úmido pelo orvalho da manhã, era agora um leito duro e incoveniente. No meio do sangue, ainda quente, e da alma, já fria, alguém, com mais coragem, decidiu esconder a cena com as folhas de um jornal velho, trazido pelo vento.
Jornal que, por coincidência ou não, estampava outra morte. Outro acidente. Outro motoqueiro. A realidade veio brusca e rápida à minha mente. Sim, era mais um. O fato é o mesmo, a tristeza, ambígua.
Respirei fundo, para encher os pulmões de coragem. Tentei por algum instante apagar aquilo da memória, mas foi em vão. A sirene da ambulância já ecoava anunciado a sua rápida chegada. Porém, tardia para a situação.
Enquanto tentava refletir, os anjos vivos tentavam encontrar um meio de volta da vida. Mas a vida já não estava ali. Acabou no asfalto, no meio de latas e vidros, sem honra, sem classe.
O tempo passou, o socorro foi embora e os elementos da cena desapareceram. Fiquei ali, parado. Tudo foi muito rápido, muito certeiro. Procurei algo mais, uma pista, um caco de vidro. Não achei sinais, nem de vida, muito menos de sonhos.
Percebi que tudo havia voltado ao normal. Mais um carro, mais uma moto. O trânsito havia vencido. Olhei para o céu em busca de explicação, uma desculpa, uma culpa.
Nada. Foi quando percebi que o sinal havia fechado novamente. Era vermelho, como sangue.

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