Quando o sigilo é a alma do negócio
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de julho de 1998
James Alberti 
Um casal caminha escritório adentro. Senta em frente a um homem desconhecido e coloca sobre a mesa a razão de um drama: cartas anônimas. O conteúdo delas? Elementar, meu caro Watson, diria Sherlock Holmes. Traição. O homem desconhecido é o ex-policial federal Marcos Vinícius Ferri Turbay, hoje um discípulo do detetive inglês, o mais famoso da história, pelos menos na ficção. Mas o caso, este foi real. Foram 12 cartas em 12 meses, que deixaram maluco um bem sucedido empresário de Curitiba. Todas davam conta que sua mulher tinha um romance com outro homem. Depois da assinatura de um contrato, começou o serviço de Turbay: descobrir de onde vinham as cartas.
Casos assim já foram os mais comuns durante os primeiros anos da carreira de Turbay, dono da S.P.I. Serviços de Investigações e Contra-espionagem. De cada dez, sete tinham esse cunho, segundo ele. Com o tempo, as traições conjugais perderam espaço para os serviços de contra-espionagem, pais que vigiam babás, empresas que investigam funcionários. Hoje, de cada dez casos, apenas três têm relação com assuntos familiares, diz.
Kraw PenasServiço secretoJohn May: autônomo, usa equipamentos de terceiros e garante que maioria dos clientes não faz questão de contrato por causa do sigiloOs desafios de agora são histórias como a do funcionário de uma multinacional, que ao ser demitido entrou com uma ação afirmando que tinha ficado surdo. Turbay conta que foi ao bar que o empregado havia aberto com uma micro-câmera escondida no boné. Os dois conversaram por cerca de uma hora. Ao voltar ao escritório, o detetive ligou para o bar e conversou mais 30 minutos com o comerciante. Caso encerrado: o empregado perdeu.
Mas nem todos os casos terminam assim. O primeiro da vida de John May, por exemplo, há 27 anos, não terminou bem. Contratado para localizar um cachorro, May se deparou com o fracasso, que, segundo conta, lhe serviu de lição. Fazendo serviços por conta própria, May se diz especialista em traições conjugais e vive situação exatamente inversa à de Turbay em relação aos casos que investiga. De cada dez casos, sete são adultérios.
Qual a diferença entre os dois detetives? A forma de trabalhar, a tecnologia usada e o preço são as três mais gritantes. May afirma que resolve um caso familiar em, no máximo, cinco dias. Sua diária é de R$ 350,00. Já Turbay só faz contratos com o mínimo de 30 horas trabalhadas, pelo preço de R$ 3 mil. Em casos familiares, segundo ele, é necessário, em média, trabalhar durante 30 dias, o que não sai por menos de R$ 14.000,00.
As diferenças entre os dois resumem o que acontece com o restante do serviço de espionagem: de um lado as empresas especializadas; de outro, os autônomos. Enquanto as empresas trabalham em escritórios, com produtos sofisticados, identificam e selecionam os clientes e têm como regra básica a assinatura de um contrato entre as partes, os autônomos fazem trabalhos para quem os contratar, usam equipamentos de terceiros e não exigem contrato. Segundo John May, a maioria dos clientes não faz questão por causa do sigilo.
Eis a palavra: sigilo. Os detetives fazem do silêncio e do mistério suas grandes virtudes. Eles jamais devem trair a confiança de um cliente. É por isso que Turbay não investigou a mulher do empresário que recebia cartas anônimas. Conforme o pedido do cliente, descobriu apenas de onde vinham as cartas e quem as mandava. Para surpresa geral, era a mulher do empresário a mentora da tortura via correio. Se ela traía mesmo o marido? Isso o detetive diz não saber. E, se sabe, não diz.Detetives particulares investigam casos que poderiam render um filme, mas admitem que não cuidam só de adultério
Mauro FrassonTempos modernosMarcos Vinícius Turbay: traições conjugais perderam espaço para os serviços de contra-espionagem, pais que vigiam babás ou empresas que investigam funcionáriosDetetives fazem
do silêncio e do
mistério suas
grandes virtudes


