Quando o mau humor vira doença
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Anna Camanducaia 
Mais do que traço da personalidade ou resultado de frustração, o mau humor pode ser doença. Quando o problema dura mais de dois anos no adulto, e um ano na criança ou adolescente, o diagnóstico é a chamada distimia (depressão crônica do mau humor).
Segundo o presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, João Artur Borges Winkelmann, 6% da população mundial sofrem de distimia - o dobro de cinco anos atrás. Ele acredita que o número de distímicos supere os 10% em seis anos.
A distimia pode ser hereditária, resultado de uma pré-disposição ou ainda causada por fatores estressantes, como trânsito, barulho, falta de segurança ou mesmo a pressão social que obriga o indivídio a vencer sempre. As drogas, inclusive o álcool, também levam ao mau humor.
Os sintomas da doença são tristeza crônica, irritabilidade, agressividade, baixa auto-estima, dificuldade de concentração, insônia ou hipersonia, cansaço e falta de prazer no trabalho e nos relacionamentos. A pessoa acha tudo exageradamente triste, diz o psiquiatra.
A distimia atinge mais as mulheres, na proporção de dois casos para um. A mulher trabalha muito mais que o homem e quer dar conta de tudo: marido, filhos, casa e chefe, além de ser mais afetiva e sensível e, por isso, mais sujeita a frustrações. A faixa etária mais atingida é a de 30 a 45 anos - período mais produtivo e com mais pressão.
Segundo Winkelmann, menos de 30% das pessoas que sofrem de distimia procuram se tratar. Quando procuram, vão a um clínico geral para tratar de uma dor de cabeça, tontura, labirintite, diz. O paciente nunca melhora porque tenta tratar o sintoma e não a causa. A maioria das pessoas encara a distimia como desânimo, mas é uma depressão e deve ser tratada, com antidepressivos e psicoterapia.
O estudante R.F., 19 anos, começou a ficar mau humorado e depressivo há quatro anos. Era muito explosivo, admite. R.F. conta que não conseguia conversar, não tinha paciência, não ia ao colégio e dormia mal. R.F chegou até a brigar com a namorada por causa do mau humor. Este ano, começou a fazer tratamento. Percebi que não tinha mais controle da situação, diz. Hoje, está mais tranquilo, estuda e sai com frequência. Também voltou para a antiga namorada. Para prevenir a depressão, Winkelman recomenda boas noites de sono, alimentação adequada, trabalho que a satisfaça, momentos de lazer e amigos.
Mas o humor também pode ser uma simples resposta aos acontecimentos do dia-a-dia. Se ocorre algo agradável, a pessoa reage com bom humor, diz a psicanalista Nancy Greca Carneiro. Quando existe uma decepção, a resposta é o mau humor. As oscilações são comuns, o problema é quando o humor não corresponde às situações do cotidiano. Reações ilógicas caracterizam os transtornos de humor - depressão e estados maníacos (exaltação). Depois que uma pessoa rompe com o mundo externo, ela tenta resgatá-lo a todo custo. Neste caso, o humor da pessoa oscila de muito eufórico e irritável a tristeza e desesperança, passando também por períodos de comportamento normal.
O transtorno bipolar, como é conhecida a doença, começa na adolescência ou no adulto jovem e continua pela vida. O tratamento é feito com medicamentos e psicoterapia. Segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria, estima-se que um número entre 750 mil e 1,5 mil de brasileiros tenham a doença maníaco-depressiva.


