Quando o exagero se torna compulsão
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 1998
Guilherme Pupo 
Quem já não sentiu aquele desejo incontrolável de atacar uma caixa de bombons, ou não conseguiu desligar a TV até que acabasse a programação de todos os canais, ou ainda, não resistiu a comprar várias peças de roupa de uma só vez, mesmo sem ter necessidade de usá-las nos próximos meses?
Se você teve alguma dessas compulsões (ou mais de uma delas), não precisa ir correndo ao consultório psiquiátrico mais próximo, mas é bom tomar um certo cuidado. Elas estão presentes no dia-a-dia de todas as pessoas, em menor ou maior grau, e podem acabar atrapalhando a vida do sujeito - que pode acabar gastando mais do que ganha ou até caindo fora da realidade e vivendo um mundo virtual.
Pequenas compulsões todos nós temos, mas se a pessoa pára de viver sua realidade para viver a virtual, a situação está complicada, observa a psiquiatra curitibana Maria Luiza DÁvila Pereira. Ela explica que a causa da compulsão geralmente está relacionada a alguma insatisfação pessoal ou carência. Se alguém está deprimido ou angustiado, tenta comprar algo que lhe satisfaça, exemplifica.
Kraw PenasA psiquiatra Maria Luiza DÁvila Pereira: primeiro passo do tratamento é a pessoa assumir seu problemaJá nos casos de compulsão por comida, pode ser uma forma de proteção. Muita gente acaba comendo muito para engordar e deixar de exercer atração sexual e não ter que enfrentar o outro. A satisfação passa a ser via oral, por meio da comilança, diz a psiquiatra.
Ela observa que, muitas vezes, os compulsivos não têm consciência dos seus atos, e perdem a noção de tempo quando estão envolvidos com eles. Alguém que vê televisão o dia inteiro, com certa frequência passa a viver por identificação a vida do personagem da novela ou do filme. Em alguns casos, a pessoa acaba dependendo tanto daquilo que não pode perder um capítulo ou parar de assistir um vídeo antes de terminar o filme - não pode cortar o laço com a realidade virtual e cair na real, comenta a psiquiatra.
Compulsão também não escolhe idade, segundo Maria Luiza DÁvila Pereira. Em adolescentes, pode se manifestar nos vícios em jogos eletrônicos ou na Internet. Essas também são fugas da realidade. Nessa fase em que um corpo novo está nascendo, os jovens precisam de um tempo para se acomodar e se acostumar com o surgimento da personalidade. Enquanto isso, é mais confortável ficar vivendo uma realidade virtual, observa.
Nos tratamentos de compulsivos, a psiquiatra diz que o primeiro passo é a pessoa tomar consciência do problema e assumir que precisa trabalhar com ele. Nem sempre é fácil, porque as pessoas resistem a saber de si. Mas, com o tempo, é necessário que o paciente perceba em que a compulsão prejudica a sua vida e como ele pode modificar isso.


