Londrina – Na pequena Bela Vista do Paraíso, município de 15 mil habitantes a 40 quilômetros de Londrina, todos conhecem a história do atendente de farmácia de coração grande. Durante muito tempo, Edmílson Cruz de Andrade, de 29 anos, ouviu com orgulho a expressão elogiosa. Atrás do balcão, cumpria sua função de vender medicamentos, mas usava a prosa fácil para alegrar aqueles que precisavam de apoio. Se orgulhava da boa saúde e de nunca de ter colocado um comprimido na boca.

O problema é que o coração cresceu tanto que não lhe coube mais no peito. Aos 24 anos, ficou triste pela primeira vez ao ouvir que tinha o coração grande. O que era uma dádiva, havia se tornado infortúnio. "Cardiomiopatia congênita", diagnosticou o cardiologista. Aquelas palavras de difícil compreensão pareciam estar escritas em letra de médico. Sem saber do que se tratava, pediu explicação. Descobriu que nasceu com uma anormalidade na estrutura do coração que afeta uma em cada 100 crianças. O inchaço do órgão pressionava toda a caixa torácica. Desta forma, descobriu que precisaria de um novo coração. Não houve árvore nem luzes na casa da família no Natal de 2009.

Durante três anos, Andrade permaneceu na fila de espera por um transplante de coração. "Quando se está nesta situação, é impossível fazer planos, sonhar. Não tinha perspectiva de futuro, pois sabia que poderia morrer a qualquer momento", revelou. Em 2010, sofreu com a perda da mãe, Maria Lopes, aos 70 anos. Desde então, a irmã mais velha, Edna de Andrade, de 51, assumiu a função de cuidar do caçula da família. "Quem vê ele assim hoje, não imagina o que sofreu. Era uma casquinha de ovo", contou. Foram duas paradas cardíacas que acarretaram em internações de mais de 30 dias. Edna lembrou das inúmeras viagens dentro de ambulâncias entre Londrina e Bela Vista.

Em julho de 2012, recebeu uma ligação inesperada. "Era de Curitiba. Mandaram eu correr para Londrina porque tinha aparecido um coração para eu fazer o transplante", lembrou. A empolgação, no entanto, deu lugar à frustração. Uma forte chuva que atingiu o Estado fechou os aeroportos Afonso Pena, em São José dos Pinhais, e Governador José Richa, em Londrina. Depois de passadas as quatro horas que o órgão resiste fora do corpo, Andrade foi comunicado e se conformou. "Sabia que Deus tinha planos para mim. Se não era para ser daquela vez, seria na próxima."

Mais um Natal se aproximava sem qualquer notícia do presente mais aguardado. Quando Andrade já se conformava com mais um fim de ano triste, foi informado que uma família de Foz do Iguaçu fez a doação dos órgãos de um jovem de 18 anos, que morreu em um acidente. Em um dia de céu azul e sem nuvens, o avião pousou tranquilamente em Londrina. O transplante transcorreu sem problemas na Santa Casa de Londrina. "Ali senti que minha vida mudaria para sempre. Eu precisava fazer por merecer. Comecei a dar valor nas pequenas coisas da vida."

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