Quando eu crescer
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de janeiro de 2003
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
Seu Aprígio estava numa maré de dar dó. Desempregado há oito meses, com dívidas imensas a pagar, ameaçado de despejo. Era tristeza demais. Pensando em se aliviar um pouco das suas preocupações, seu Aprígio ouviu falar que ia ter um forró comunitário no seu bairro, organizado pela prefeitura ou coisa assim, e decidiu ir sacudir um pouco as carnes pra abafar a melancolia.
Depois de algumas horas de dança, seu Aprígio foi abordado por um repórter, bloquinho na mão. ''Oi, a gente está fazendo uma enquete. O que o senhor está achando da festa?'' Seu Aprígio engatou um discurso, disse que uma iniciativa daquelas era importantíssima, dava alegria à vida de quem tinha muita tristeza pra lamentar, e tal. O repórter agradeceu.
No dia seguinte, seu Aprígio comprou o jornal e viu que a matéria tinha sido jogada prum canto de página. E nada do depoimento dele. Essa era boa, rejeitado até na hora de dar entrevista. Nervoso, seu Aprígio juntou uns trocados e foi até o jornal tirar satisfação com o repórter.
''Como é que você me 'aluga' daquele jeito, gasta meu tempo, pra depois não sair nada no jornal? Está me achando com cara de palhaço?'', chegou disparando, tão logo viu o jovem 'foca' no seu caminho. ''Olha, o senhor desculpa, me cortaram na edição, tive uns problemas...'' ''Problemas! Problemas tenho eu, que estou há meses sem emprego, sem condição de dar uma colher de arroz pros meus filhos...'', e seu Aprígio engatou mais um discurso. Reparou que os olhos do repórter começaram a brilhar.
''Ah, mas nós estamos justamente fazendo uma matéria sobre desemprego e miséria! O senhor não quer dar uma entrevista pra gente na sua casa?'', devolveu o jornalista. Seu Aprígio topou. O repórter apareceu, o fotógrafo clicou as panelas vazias, o armário sem mantimentos. Quando foram embora, a filha de dez anos de seu Aprígio estava entusiasmada. ''É tão bonito esse emprego deles, né, pai?'' ''É sim, filha''. ''Quando eu crescer, quero ser jornalista''.
Dois dias depois, não deu outra. A foto de seu Aprígio era matéria de capa, seu rosário de lamentações tinha sido reproduzido quase na íntegra. Com um sorriso, ele chamou a filha: ''Vem cá''. A menina se aproximou. ''Você disse que quer ser jornalista, né? Vou te dar a sua primeira aula''. Seu Aprígio estendeu a matéria minúscula sobre o forró. ''Pobre alegre não vende jornal''. Depois, mostrou a imensa chamada de capa. E completou: ''Agora, pobre triste...''


