O dia 6 de outubro de 2001 nunca mais será esquecido pela secretária administrativa S. F. L., de 44 anos. Ela, que prefere não ter identidade mantida sob sigilo, só conseguiu superar a dor de perder o irmão caçula, o qual considerava como um filho, somente três anos após a morte dele.
''Quando recebi a notícia, eu me recusava a acreditar. Fiquei mal durante muito tempo, carregando uma dor muito forte. Com a morte dele, eu mudei. Essa perda me deixou no chão'', desabafa, ao recordar o dia em que recebeu a notícia de que um acidente de carro na BR-369 matou três ocupantes. Um deles era o irmão dela, de 19 anos.
''Três anos depois, conheci uma psicóloga. Quando comecei a falar sobre tudo isso, passei a me sentir melhor, pois comecei a aceitar a situação. Foi como abrir as portas para o mundo novamente'', conta.
Essa é apenas uma das milhares de histórias que esbarram todos os dias, na vida de pessoas que sofrem a perda de alguém muito próximo, seja por um ato de violência ou uma fatalidade.
''Quando essas pessoas não conseguem lidar com a dor, elas tendem a ficar estancadas em um processo de culpa, raiva e depressão. Sem conseguir elaborar os sentimentos e reintegrar-se à vida cotidiana, muitos acabam 'congelando' no tempo e no espaço'', comenta a psicóloga Paula Hayashi.
Segundo ela, é muito comum as pessoas terem dificuldade para expressar os sentimentos e falar abertamente sobre a dor da perda. Partindo dessa percepção, surgiu a ideia de organizar um grupo de apoio a pessoas enlutadas, em parceria com o psicólogo Claudinei Silvano.
''A ideia é propiciar acolhimento para que num sentimento de pertencer a pessoa consiga caminhar, sempre sob o alicerce de estar indo em grupo. É um local onde a pessoa sabe que pode buscar uma força, um alento'', explica Silvano.
O psicólogo, no entanto, salienta que a experiência dolorosa nos faz viver cada uma das nossas dores de modo único e individual. Portanto, é importante respeitar as singularidades de cada processo, sem forçar modelos ou padrões. ''No grupo, a pessoa poderá participar em silêncio, apenas ouvindo, pois desta forma estará recebendo apoio pelo próprio sentimento de pertencer a um grupo que acolhe sua dor'', comenta.
Aceitar a perda
De acordo com os psicólogos, diferentes caminhos de enfrentamento são possíveis e dar um novo significado é um deles. ''É dar sentido a uma nova realidade, vivenciando a perda. É integrá-la à vida e não negá-la'', completam.
Para algumas pessoas, o simples gesto de expressar o que estão sentindo em um papel, escrevendo cartas, poesias ou até mesmo escutando músicas, já é um grande alívio. Mas é fundamental também que essas pessoas consigam falar sobre esse sofrimento causado pela perda de um ente querido.
De acordo com Paula, as questões sobre as quais não conseguimos ou não queremos falar não desaparecem simplesmente porque não as discutimos. ''Compartilhar a dor ajuda a amenizar o sentido de exceção que as pessoas dão à sua própria perda, podendo diminuir o sentimento de isolamento em que se encontram, recebendo apoio afetivo e solidariedade'', afirma.
Pela experiência, os psicólogos observam que a ausência de ajuda e o não falar sobre a morte podem levar à necessidade de tratamento medicamentoso. Porém, mesmo sabendo que o uso de medicamentos se faz importante e necessário em alguns casos, eles defendem que ele não possibilitará a pessoa a falar a respeito. ''A realidade de perda nos obriga a tomar consciência de nossos valores mais internos e nos convida a criar, pensar e procurar um sentido'', diz.
Serviço:
Informações sobre o Grupo de Apoio: (43) 3344-5699.

mockup