Os habitués da caverna de Platão não esperavam por essa. O único instante de absoluta magia, de encanto intacto, de resignação pura à estética, de devoção máxima a tudo o que o cinema pode estimular... não é mais o mesmo. Os frequentadores das salas de cinema em Londrina continuam distantes de um prazer único e modesto – o de assistir a um filme em seu formato original, sem cortes e interrupuções.
Essa prática já é velha, como bem recorda o jornalista Estélio Feldman. Clássicos dos anos 60 como ‘‘Spartacus’’, de Stanley Kubrick, já comportovam intervalos insensatos unicamente dispostos à venda de balas e croquetes. Nos últimos anos, grandes produções hollywoodianas como os ‘oscarizados’ ‘‘O Paciente Inglês’’, ‘‘Titanic’’, ‘‘Star Wars - A Ameaça Fantasma’’ e os recentes ‘‘Harry Potter’’ e ‘‘O Senhor dos Anéis’’ não fugiram à regra – em meio à sessão exibidora, os cinemas acenderam suas luzes sob um tom intimidador, que retira a lúdica e última magia ainda capaz de atrair o público a uma sala de cinema – a possibilidade de se mergulhar em outro mundo.
O principal argumento dos donos das salas exibidoras é pitoresco, quase ilógico. Dizem que um longa-metragem de mais de 2 horas e trinta minutos merece um intervalo; pois sem interrupções, o público estaria tomado pela fadiga. Grande engano e lamentável abuso, eis o que é na verdade essa atitude dos cinemas que acabam por lesar todos os espectadores. Além do público ser forçado a sair do estado mágico da projeção de uma história, os espectadores se direcionam aos vendedores de pipoca, compram refrigerantes, doces e chocolates, e, ao voltar, se esbarram em meio às sombras de uma projeção inesperada que já se faz presente. Que direito pode se atribuir a um exibidor de interromper a assimilação de uma obra de arte? Ou de entretenimento, que seja?
O que essas salas exibidoras perpetuam é uma postura de desrespeito ao consumidor, de extermínio de qualquer concentração possível, de apelo ao que arte tem de mais repulsiva – a ilusão em troca de símbolos monetários. O espectador paga por uma obra, não por um pacote de pipoca entre um prólogo e um epílogo. O prazer que o cinema restringia ao seu âmbito – o escuro que nos esclarece por meio de fábulas visuais – não se diferencia mais de qualquer atração vinda da TV, com seus intervalos abruptos e exclusivamente comerciais. Se alguém ainda acredita na fantasia, na mágica que uma história pode render, no encanto que uma boa trama nos causa... por favor, peça ao exibidor mais próximo um pouco de sensatez. Às vezes o nosso coração diz verdades por vias românticas e aparentemente defasadas. Mas nesse caso, o romantismo tardio não carece de boas razões... Não mesmo!!

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