Londrina - Bons exemplos surgem quando políticas públicas "encontram" indivíduos dispostos a transformar o meio em que vivem. E boas referências aparecem quando é possível dimensionar essa prática, beneficiando cada vez mais pessoas.
É com essa força que a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) se mostra a quem a acolhe. Criada e sistematizada em 1987 pelo psiquiatra, antropólogo e professor universitário Adalberto Barreto, do Ceará, a TCI é um procedimento terapêutico em grupo com a finalidade de promover a saúde e atenção primária em saúde mental.
Em outras palavras, "é uma roda de conversa, um espaço de partilha e de experiência de vida. Ela possibilita que as pessoas possam falar em um espaço seguro, através de uma metodologia simples. A ideia do acolhimento é deixar as pessoas bem à vontade para que elas sintam confiança em compartilhar suas inquietações", comenta Maria Lúcia de Andrade Reis, doutoranda em Terapia Comunitária e presidente da Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (Abratecom), fundada em 2004.
Há poucos dias, Maria Lúcia esteve em Londrina participando de um encontro de Gestão em Redes de Atenção à Saúde. "A Autarquia de Saúde de Londrina é um dos 37 polos formadores de terapeutas comunitários presentes no Brasil. Além disso, há 11 anos, Londrina tem a prática com crianças que é uma referência muito grande para nós, pois foi a primeira experiência institucionalizada na rede pública", ressalta.
A coordenadora municipal de TCI, Maria da Graça Martini relembra que o primeiro contato com crianças aconteceu em 2003, dentro do projeto Viva Vida da Secretaria Municipal de Assistência Social. "Hoje, o país inteiro vem trabalhando com esse público. Uma novidade é que neste ano passamos a integrar o programa Saúde nas Escolas, do Ministério da Saúde. Dentro do ambiente escolar, abordamos temas como bullying, prevenção de álcool e outras drogas, promoção de saúde, redução de danos, entre outros", diz.

Local adequado
Desde 2002, quando a metodologia começou a ser implantada no município, foram mais de 150 mil participações. Atualmente, os atendimentos giram em torno de oito mil/ano. "Trabalhamos nas Unidades Básicas de Saúde, no Caps AD, Caps 3, escolas, embaixo de uma árvore, praça, no centro comunitário ou mesmo no salão paroquial. Nós articulamos a rede de uma determinada comunidade e buscamos o lugar mais adequado que abrigue o maior número de pessoas", explica.
As rodas são ministradas por agentes comunitários, psicólogos, médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, farmacêuticos e demais profissionais da saúde que se capacitaram de 2002 para cá. Em Londrina, a última turma foi formada em 2011, através do programa de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde.
A capacitação tem carga horária de 240 horas, dividas em eixos teóricos, vivência corporal, encontros de partilha e intercâmbio e prática de roda. "Este ano, estamos com outro convênio para capacitar profissionais da saúde na área da Assistência Social, Defesa Civil e Liderança Comunitária, utilizando a TCI como estratégia no enfrentamento de situações de calamidade",
completa Maria Lúcia, da Abratecom.

Brincadeiras
Tendo a primeira experiência institucionalizada, Londrina se tornou uma referência nacional na TCI com crianças. Para Maria Lúcia, o interessante é a oportunidade que se dá ao público infantil para falar sobre suas inquietações e também de aprender a desabafar. "Trabalhar com crianças é apaixonante porque elas são muito espontâneas. A única coisa a fazer é adaptar nossa linguagem, tempo e brincadeiras", afirma.
Outro ponto importante deste trabalho é a redução de danos. "No futuro é um adulto que tem menos chances de ter hipertensão, diabetes, depressão, entre outras doenças causadas pelo sofrimento difuso, que são por exemplo, queixas de dores de cabeça ou estômago e que não se descobre de onde vem porque não tem doença", explica Graça, coordenadora municipal.
Com experiência há cinco anos na TCI, a agente de saúde da UBS Carnascialli, Surli Belchior de Oliveira comenta que possui um "salário" afetivo enorme com o trabalho. Desde o início do ano, acompanhada pelas terapeutas Roseli Zaninelli e Elza Araújo, Surli comanda as rodas semanais na Escola Municipal David Dequech, no Parque Ouro Branco (zona sul).
São cerca de 240 alunos do 4º e 5º ano atendidos em turnos da manhã e tarde. E mesmo a participação sendo voluntária, Surli garante que a adesão é total. "No começo alguns ficaram resistentes, mas com esse número de rodas conseguimos criar um vínculo entre os alunos e os resultados são relatados por uma professora, que no dia a dia vem percebendo uma mudança no comportamento de respeito em sala de aula", argumenta.
A terapeuta conta ainda que os temas abordados são principalmente o bullying, conflitos familiares e prevenção de drogas. "Às vezes, a criança pode ter dificuldade em se expressar em certos lugares e com determinadas pessoas, mas na roda a gente quer que ela se sinta segura. É por isso que vamos pegando as gírias deles e trabalhamos com muita música e brincadeiras. Mas nada disso funciona se o terapeuta não tiver flexibilidade e não souber lidar com a imprevisibilidade", completa.
Quando uma situação de gravidade surge na roda, agentes da UBS fazem uma discussão de caso e outros serviços da rede são acionados. Surli comenta que as terapeutas também se propõem a uma conversa individual. "Contamos muito com a leitura corporal. Dependendo de como a criança está se comportando, já ficamos em alerta de observação e começamos a trabalhar com perguntas. De acordo com as respostas, conseguimos identificar o problema e acionar a rede", conclui.

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