Quando a morte não substitui a bola
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segunda-feira, 29 de outubro de 2001
Luciano Augusto 
Sob o sol, num ponto de ônibus, um corpo vigiado por policiais militares aguarda a chegada do rabecão para ser removido. Ao redor, curiosos se amontoam para tentar descobrir o estado do cadáver. Junto dos adultos, um menino abandona a bola por alguns momentos e chega mais próximo do local do crime.
Não parece chocado nem com medo. Está apenas curioso com a aglomeração de pessoas e com a viatura da polícia e os carros da imprensa. Apesar de morar e brincar a poucos metros de onde houve o assassinato, ele não viu nada além do corpo caído sob a terra batida da rua sem asfalto de um assentamento urbano de Londrina.
''Aqui tem muita morte'', comenta ele. ''Outro dia teve um tio que morreu na rua de cima'', fala sem se impressionar. ''Vai passar na televisão?'', pergunta. Quase sem esperar a resposta, ele se volta para os amigos e corre novamente em direção à bola. Para o menino de pouco mais de cinco anos, a violência não está impregnada no rapaz morto, que não tinha sequer completado a maioridade.
A violência, para ele, está sim assinalada nas coisas que o circundam. A violência está na sua vida inteira e não na vida do outro que levou um tiro fatal na nuca. Está no esgoto sem encanamento que escorre rua abaixo espalhando doenças e mau cheiro. Na falta de uma escola que o trate com a dignidade de criança. No subemprego do pai ou no desemprego da mãe. No bêbado alheio a tudo e a todos, que cantarola uma música desconexa encostado no carro da PM.
A vida para o garoto parece passar mais rápida. Ele tem pressa de jogar bola, de ver o corpo, de questionar o repórter e de voltar a brincar. Afinal, o garoto pobre não viu nada além do que está acostumado a ver no seu cotidiano de marginalizado. Mais uma vez, ele viu a morte e voltou a brincar. Resta saber se quando não for mais criança ele quererá mais brincadeira ou irá optar pela reação.


