Quando a droga atinge as famílias
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terça-feira, 06 de novembro de 2012
Micaela Orikasa <br>Reportagem Local 
''Eu tinha medo de nunca mais ver minha filha. Sentia muita tristeza, chorava o tempo todo, mas nunca perdi a fé.'' O depoimento dessa mãe que tem uma filha de 21 anos, usuária de crack, revela o drama vivido por muitas famílias que são transformadas pelo álcool e outras drogas.
A jovem, que saiu de casa para se drogar nas ruas, só retornou após ser espancada devido a uma dívida com traficantes. ''Pagamos R$ 350 para que eles deixassem minha filha em paz, mas, mesmo assim, ela foi ameaçada de apanhar de novo. Hoje, já faz dois meses que ela está de volta, mas vive dentro de casa por nossa ordem. Agora, ela topou receber ajuda de uma psicológa'', conta a dona de casa.
Em outro ato de desespero, uma mãe entregou o filho à polícia, ao descobrir que ele havia praticado um roubo para comprar droga. A FOLHA noticiou o caso há poucos dias. O filho foi parar na delegacia, mas vai responder pelo ato em liberdade. ''Eu pensei que com esse susto ele ia acabar cedendo para um tratamento, mas não teve jeito. Ele continua viciado e eu continuo sem dormir, só imaginando o dia em que isso vai terminar. É por isso que todos os dias eu converso, tentando convencê-lo a se tratar. É lutar, lutar e lutar até a hora em que Deus vai tirá-lo dessa vida'', desabafa.
Histórias de sofrimento causadas pela dependência química são vividas hoje por inúmeras famílias, qualquer que seja a classe social ou idade. A falta de orientação para lidar com a situação e até mesmo o não entendimento de que o vício é uma doença forçam muitos pais a tomar atitudes extremas, acreditando em uma solução.
Para o psicanalista Marcelo José de Castro, membro da Associação Psicanalista Internacional e professor em Psiquiatria do Hospital Universitário (HU) de Londrina, a dependência de drogas é uma doença que deve ser encarada como tal pela família.
''Há uma forma culturalmente já instituída de ver o fenômeno de dependência de drogas entre adolescentes como um problema. Mas a dependência química, como qualquer outra doença mental, é complexa e multifatorial, provocada por variáveis sociais, econômicas e políticas de nossa sociedade e também pelos padrões de relacionamento familiar. As famílias devem entender que um dependente de drogas é um sujeito doente'', afirma.
A psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Caps-AD) de Londrina e presidente do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Álcool e outras Drogas (Comad), Ana Carolina de Paula Athayde, observa que quando há uma situação de dependência química na família há um processo de desestruturação com o qual, na maioria dos casos, os familiares não sabem lidar.
''As famílias são despertadas pelo desespero e isso provoca um afastamento entre eles, dificultando o diálogo. O desejo de que tudo aquilo acabe naquele momento é tamanho, que a família não percebe o que está acontecendo de fato e busca a melhor forma de agir de acordo com seu entendimento. A primeira conversa é muito difícil, mas necessária'', ressalta Ana Carolina, ao lembrar ser muito comum as famílias acharem que vão conseguir vencer o vício sozinhas. ''Quando elas percebem que não é possível, procuram ajuda. Mas até isso acontecer, provavelmente já foram tomadas atitudes de repressão e até agressão, principalmente com adolescentes'', diz.


